O diabo veste preto... e é emo
Era final de uma sexta-feira quando resolvi entrar na estação Consolação do Metrô, ali na Av. Paulista. Foi nesse dia que encontrei uma nuvem de emos, esses adolescentes de sexo, personalidade e caráter indefinidos, e que só tem duas certezas na vida: a de que querem morrer, e a de que querem ouvir CPM22 antes. Foi também nesse dia que percebi que nunca vou entender essa tribo, raça, praga ou o que quer que isso seja.
Os emos não são rebeldes, muito pelo contrário. São mansos, pacíficos, e porque não dizer, verdadeiras flores. Negras, no caso. Afinal, emo que é emo se veste de preto e assina embaixo. Mas claro, não sem antes ir aos prantos. Sim, porque emo quando não chora na entrada, chora na saída, ou tatua as lágrimas no rosto pra não perder a viagem.
Como não bastasse a falta de rebeldia, o emo típico e autêntico também não tem causa. Duvida? Pergunte a um deles onde ele pretende chegar, ou o por quê de tanta tristeza, e das duas uma: ou você se mata e realiza o desejo de dez a cada dez emos, ou como um típico e deprimido emo, também cai em prantos. Mas de raiva.
Na verdade o emo não sabe porque chora. Talvez seja culpa do cabelo, que, este sim, é rebelde e insiste em ficar ridiculamente sobre um dos olhos enquanto o outro tenta ver o mundo num tom cinza. Talvez seja culpa das brigas com a irmã, que não empresta a chapinha, ou demora demais com ela enquanto o emo crespo espera a vez pra alisar as madeixas sobre os olhos sempre pintados.
Ou será culpa das músicas do NXZero, que é muito deprê e o emo insiste em ouvir? Definitivamente o emo chora por tudo. Porque é triste, porque que o mundo é injusto, porque o sol é quente, porque a noite é escura. E chora até porque o Corínthians foi rebaixado, o que na verdade é motivo de alegria, não o contrário.
O emo é um deprimido nato, uma flor na essência, e como não é um rebelde, naturalmente não tem causa. Até porque, se tivesse ela seria perdida ou ele não seria capaz de enxergá-la, já que só tem um olho míope e outro sempre coberto pelo cabelo.
Mas se tem uma coisa que não se pode dizer do emo é que ele não tem trilha sonora. Aliás, ela é bem farta e cheia de bandas diferentes cantando músicas iguais, que são na verdade uma variação de grandes sucessos do passado, mas com uma roupagem mais justa, rasgada nos joelhos e com boné de caminhoneiro americano meio de lado para cobrir o cabelo sobre um dos olhos.
Sim, afinal, muito antes do CPM22 sentir seu mundo acabar, perder o chão sob seus os pés e toda aquela coisa triste, Odair José, Reginaldo Rossi e até mesmo o rei Roberto Carlos, já se revezavam cantando essas desilusões que se transformariam no embrião do som que embala essas mentes vazias e tão sensíveis.
Hoje essa trilha é composta por bandas como NXZero, CPM22, Fresno, e internacionais como My Chemical Romance, 30 seconds to algum lugar, entre tantos outros. Mas essa lista só não é completa porque falta o grande visionário do movimento emo, que atualmente permanece no esquecimento. O que é uma grande injustiça.
Afinal, foi o Wando com sua sensibilidade à flor da pele e seu olhar de peixe emo que, além de despir a intimidade feminina e construir a maior coleção de calcinhas da música brasileira, lançou lá atrás a moda que hoje recebeu chapinha e franja. Ou você tem alguma dúvida de que acelerando o ritmo, colocando um vocal ruim e mais uma guitarra mal tocada, refrões como “você é luz, é raio, estrela e luar” renderiam discos de ouro, se isso ainda existisse?
Mas se a música é uma coisa bem definida na vida do emo, o mesmo não se pode dizer do sexo. E se você já achava que discutir o dos anjos era um problema, certamente é porque ainda não discutiu o sexo dos emos.
O que se sabe muito por cima é que, por mais que todas as evidências, sombras e batons pretos possam provar o contrário, o menino emo não é uma menina. Tá certo, ele tem tudo para funcionar como tal, mas realmente não é. Só que também não é menino. Talvez seja uma minhoca. Ou não.
Depois de atravessar aquela multidão de aborrecentes de luto pela própria morte ainda em vida, confesso que me senti meio mal. Meio pra baixo. Quase com vontade de cantar uma canção emo, sei lá. Então tratei de reagir, afinal, filhote de pombo e emo adulto não existem. E eu não seria o primeiro.
Então, peguei o primeiro trem para o bom e velho Sapopemba, onde os emos não têm vez e os homens não amam coisas, até porque, isso é coisa de emo e são paulino. E chegando lá, me senti melhor.
Morando mal
Morar em casa é bacana, sempre quis morar em uma. Mas como tudo, tem suas vantagens e desvantagens. Entre as muitas vantagens está o fato de poder fazer seu churrasquinho no fim de semana, ouvir o som um pouco mais alto, lavar o carro, andar pelado, essas coisas. Se bem que eu moro em apartamento e também ando.
O ruim de morar em casa ou naqueles apartamentos do CDHU ou da Cohab, por exemplo, é que você não pode selecionar quem bate na sua porta. Não tem jeito. Se pudesse colocar uma placa na porta do tipo “Vizinho bravo!”, “Somente para vizinhas loiras e seminuas”, ou “Xícara de café, de açúcar, chave de fenda e escada tente no vizinho ao lado”. Mas não tem como.
E quando não são os vizinhos precisando de algum favor na hora errada, são os Testemunhas de Jeová, os amigos da associação dos amigos de alguma classe que sequer existe, mas que sempre está precisando de uma contribuição em dinheiro – assim como eu, e também os vendedores de tudo que é invenção. É o mau de morar num país tão livre – ou de não ter um pit bull faminto à mão.
Outro dia, por exemplo, um sujeito me acordou para falar da “Campanha anual de purificação da água”...
Em primeiro lugar: existe uma “campanha anual de purificação de água”? A Sabesp faz isso todos os dias, há anos, e até hoje não conseguiu muita coisa. Como é que esse sujeito vai conseguir fazer isso uma vez por ano - sim, pois a campanha é anual – e pior, justamente no dia em que eu resolvi dormir até mais tarde?
Pro inferno ele e a campanha dele! Pela pretensão do absurdo até pensei que fosse coisa daquele tal de Al Gore, que quer de todo jeito esfriar o planeta. Mas não. Por incrível que pareça, não era coisa dos yankees. Desta vez era só um maldito vendedor a serviço dos aliados tentando me empurrar um purificador de água Europa goela abaixo...
Optei por deixar minha água suja mesmo. Campanha anual... fechei a porta e voltei pra cama. Um dia ainda mudo pra um condomínio sério ou compro um cachorro monstro.
A primeira a gente nunca esquece
Depois de algum tempo levando a sério um estilo de vida boêmio e desfrutando até o último gole as beneficies que isto proporciona, resolvi voltar a nadar de manhã. O que, definitivamente não é fácil, principalmente durante o inverno. Mesmo assim decido encarar o desafio.
Passam das seis da manhã quando acordo, e como de hábito, levanto com grande dificuldade e me arrasto em silêncio até o banheiro. Por educação, birra e consideração ao próximo, não falo com ninguém até perto das nove da manhã. Mau humor matinal mesmo. E nesta manhã fria não seria diferente.
Continuo me arrastando e, depois de esbarrar em uma ou duas paredes, chego ao banheiro. A visão do espelho assusta, é fato. Mas resolvo isso não olhando para ele e focando na missão. Assim, depois de esvaziar a bexiga e fazer a higiene bucal sobra um tempinho. Então mato um copo de leite, pego a mochila e vou embora.
Chegando à academia, sucesso: mulheres lindas circulando com roupas coladinhas e literalmente molhadas. Que beleza! Faço um rápido mapeamento da biodiversidade local e caio na piscina. Quase uma hora e mil e tantos metros depois, termino a aula impressionado e sem fôlego. É um recorde, mesmo depois de um mês parado. Coisa de atleta mesmo.
Subo para um banho esperto e sem pressa, mas não sem mapear o ambiente novamente. Ainda tenho algum tempo para isso. Dez minutos de chuveiro e uns dois quilos de cloro depois, segue uma sessão de toalha e aquele trato com hidratante, gel, perfume, uma folheada no jornal do dia e afins. Estou pronto para me vestir. Homem moderno é assim. E ainda consegue ser hetero.
Pego então a bolsa com aquela roupa elegante, escolhida a dedo um dia antes. Camisa, calça, meias, sapatos e cintos adequados e… nada de cueca? A tranqüilidade da lugar ao desespero e à dúvida, mas calma! Sabedoria e experiência fazem diferença nessa hora e naturalmente me conduzem à decisão mais coerente naquela hora: criar o "bicho" solto.
Saio da academia com uma sensação estranha. Há certo “jogo” enquanto caminho. É diferente, mas me acostumo. Mas ainda que essa situação seja suportável, preciso tomar uma providência, fazer algo. Comprar uma cueca, talvez. No caso, a minha primeira.
Neste ponto é preciso fazer um parêntesis. É fato que a maioria dos homens não compra suas cuecas. Primeiro porque crescemos ganhando nossas cuecas. E segundo, porque mesmo depois de certa idade, ganhar cuecas é sempre melhor do que comprá-las. E claro, pra que servem as namoradas, casos, cachos e afins? Dito isto, imagine um desses homens comprando sua primeira cueca, às nove da manhã, numa loja cheia de mulheres e, pasmem, sem cueca! Esta é a cena. E o cara sou eu.
Entro na loja, que chamam de armarinho, e lá estão elas: dezenas, centenas, não!, milhares de mulheres e sinto como se estivesse sendo observado por todas elas. Aliás, o que todas elas fazem tão cedo num armarinho? A pergunta é boa e acreditem: elas cabem lá dentro.
Finjo naturalidade, meu membro também. Olho alguns panos de prato, enfeites, estou em um armarinho afinal. Como não encontro nada – óbvio!, tomo coragem e vou ao balcão para enfrentar meu destino. Cedo ou tarde teria que fazer isso.
Chega a hora. Me encho de moral, bato no balcão como se deve e chamo a mocinha simpática. Quando ela chega, olho no fundo dos seus olhos e me lembro que é assim que se faz durante um verdadeiro brinde – cheers! Lembro também que é agora ou nunca!
Então crio confiança, respiro fundo uma vez, duas, olho para o relógio, daí peço: duas camisetas brancas básicas, tamanho grande, um daqueles panos de prato com temas florais pintados à mão e, aproveitando, uma cueca branca grande também, por favor?
E saio da loja feliz. Com uma sensação de conquista inigualável e, claro, com a certeza de que mostrei pra ela quem é que manda.
O mundo é delas
Há muito tempo as mulheres vêm lutando para ocupar seu lugar. É a “guerra dos sexos”, que na verdade, mostra o quanto elas também querem se auto-afirmar, mostrar seu valor, sua capacidade, e porque não dizer, sua superioridade. Coisa que para muitos homens, se resume, digamos assim, a uma coçada no saco.
Não é de hoje que a mulher busca seu espaço. Talvez isso tenha começado quando ela resolveu que queria trabalhar fora. E quando se viu as mulheres já estavam ocupando mais e mais postos de trabalho, já ganhavam seu próprio dinheiro e ajudavam seus maridos nas despesas de casa. Isso quando não a sustentavam sozinhas.
Chegou um tempo em que elas até começaram a reclamar de salário e das condições de trabalho. Foi quando o dono de uma indústria têxtil resolveu deixar o circo pegar fogo com mais de cem delas dentro. Foi daí, dizem, que surgiu o Dia Internacional da Mulher. Mas isso é outra história, o que importa é que o mundo nunca mais seria o mesmo.
As mulheres conquistariam o direto a um estudo normal. Que magistério, que nada! Elas queriam era ser engenheiras, economistas, médicas e meter a mão na massa tanto quanto os homens. Foi quando elas passaram a não admitir mais ser tidas como “do lar”. Bom, pelo menos não de graça.
As mulheres então passaram a construir prédios, a ter seus consultórios e a dar ordens, só não aprenderam a coçar o saco, apesar de muitas terem atitude pra isso. Elas mostraram que não eram apenas rostinhos bonitos e ociosos enfeitando a sala de jantar ou vestindo lingerie de coelhinha sobre a mesa da cozinha. As mulheres provaram que eram tão capazes quanto os homens. Foi o fim do sexo frágil, pelo menos até o ciclo menstrual.
O direito ao voto também foi uma importante conquista para a mulher. Deu a ela o mesmo poder de escolha que, historicamente, sempre foi concedido apenas aos homens. Claro que, na prática, com isso elas conquistaram o direito de ajudar os homens a elegerem sempre os políticos errados, nada mais. Pelo menos nisso, seriam sempre parceiros.
Então, elas aprenderam a dirigir. Ou pelo menos passaram a acreditar muito mais nisso, enquanto que muitos homens e algumas mulheres, até hoje, concordam que se trata de algo altamente contestável. E com razão. Se para algumas mulheres, dirigir é sinônimo de cuidado e atenção, ao ponto de parar a pista da esquerda, para outras isso é coisa de mocinha. Vai entender...
As mulheres realmente ficaram com a bola toda. Depois de assumirem chefias, gerências, diretorias, ministérios e presidências, elas assumiram até o papel durão da relação. E agora, muitas são conhecidas também como “rainhas”, mas não do lar. Da pancadaria. São elas que batem nos homens. E o pior, não são poucos os gostam e ainda pagam bem por isso.
Não se pode negar que devagarzinho a mulher vem ocupando cada vez mais o seu espaço. Conquistou coisas como independência, autoridade, bons cargos no mercado de trabalho, o direito ao orgasmo, ao controle remoto, a pedir uma cerveja sem se levantar do sofá e até a ser arrogante.
A única coisa que faltava tirar do homem, era aquilo que ele sempre teve certeza que era dele: a própria mulher. Mas isso, basta ir a um show da Ana Carolina, por exemplo, para constatar que aos poucos as mulheres também já estão tirando dele. Os homens que se cuidem...
Nem toda história tem moral
Luzia e Luana sempre foram muito unidas. E não era apenas na chamada da escola, sempre foram grandes amigas mesmo. Do peito!, já diziam delas quando ainda nem tinham peito pra tanta amizade.
A primeira, com nome de santa e postura também, sempre foi recatada, tímida, religiosa. Passou a infância ajudando o padre da paróquia local em total segurança. Até porque, anos depois ficaria claro que ao contrário das mulheres, que preferem os coroas, os padres preferem os coroinhas. Na adolescência Luzia estudou em colégio de freiras e aos 21, idade tida na época como ideal para a união das escovas, casou-se virgem, apaixonada e sóbria. Ao contrário do marido, claro.
Já Luana, bem, com este nome só podia dar para atriz ou coisa pior, até porque, desde cedo sempre foi aquilo que “a gente de dona Dulce”, uma vizinha que sempre sabia de tudo – e da vida de todos - chamava de “dada”. Espoleta e curiosa, Luana começou a namorar quando as amiguinhas ou não o faziam ou ainda brincavam de médico com os primos. E não parou mais. Quando não estava namorando, ficava. Quando não ficava, ficavam com ela. Fato que tornou sua intimidade, desde muito cedo, íntima de todos. Um escândalo para a época.
Mas nem a diferença de postura pôde separar as duas, que nunca deixaram de ser amigas. E mesmo depois de muito tempo afastadas pelos rumos que a vida, ou as oportunidades, impuseram a ambas, um belo dia se reencontraram.
Luzia continuava a mesma. Honrada, fiel, do lar. Só tinha olhos e atenção para o marido, para os filhos e para seu único vício: um curso vespertino de Mandarim, do qual não abria mão. Era uma santa, como já diziam as vizinhas e seu nome. Não tinha boca pra nada, reforçavam. Até a sogra gostava da nora e não cansava de dizer que para ela “era a filha que nunca teve”.
Já Luana, que era Lulu tanto para os íntimos quanto para os ocasionais, se perdera na vida. Caíra com uma mão na frente e outra atrás em caminhos tortuosos, tirando uma das mãos, e às vezes as duas, apenas para se entregar à luxúria, ao prazer, à vida dupla, tripla e despudorada. Uma lasciva em busca constante pelo puro creme da libidinagem e da perversão.
E foi com o peso dessa experiência que Lulu buscou o ombro da amiga naquela tarde. Pois, arrependida da vida que levara até ali, acreditava cegamente que abrindo seu coração dilacerado pela vida pagã à amiga que sempre a ouviu, e a quem sempre admirou, teria o perdão e a paz. Afinal, para Luana era Deus no céu e Luzia na terra. E como o céu é para os pássaros e para aqueles que conseguem embarcar durante o apagão aéreo, melhor mesmo era aproveitar a santidade da amiga que estava logo ali. E foi o que fez.
Luzia recebeu carinhosamente a amiga na paz de seu lar e antes que a Luana dissesse a que veio, se viu envolvida em um longo e materno abraço. Ao que teve a certeza: é mesmo uma santa!
Já recomposta da emoção, Luzia, sempre serena como são todas as mulheres de Deus, ofereceu um café e aproveitou para dar as típicas boas-vindas dos lares verdadeiramente humildes: “Fique à vontade. É um lar pobre, mas asseado.”
Luana, que já se desmanchava em lágrimas antes mesmo de começar a falar, ao ser tocada pela mão encorajadora da amiga, ouviu: “Não chore. Conte-me o que te aflige, aqui você tem um colo.” - como se ela também não tivesse vários fora dali... Então Luana engoliu o choro e conseguiu iniciar seu relato. A confissão que, acreditava, salvaria sua alma.
- Amiga, o que você diria de mim se soubesse que saí com muitos homens? – perguntou Luana enquanto secava as lágrimas e observava atenta a expressão da amiga.
- Diria que você é uma mulher muito ativa - respondeu.
Luana quase desabou novamente, mas concluiu que deveria ter falado antes com a amiga, estaria salva a mais tempo. Resolveu continuar:
- Mas foram muitos homens. Muitos...
- Entendo. Realmente você é uma mulher muito ativa. Muito...
- É só isso que você pensa?
- É só isso que eu penso. Acredite.
Luana não entendia de onde vinha tanta compreensão, piedade e porque não dizer, amor. Respirou fundo e decidiu que falaria tudo. Estava confiante, a amiga a entendera, era uma santa afinal.
Luzia havia tido uma vida comportada como manda o figurino, mas ainda assim, mesmo cercada do peso da moral e dos bons costumes, via a amiga com bons olhos. Os olhos de Deus, alguém poderia dizer. Não a julgava mesmo depois de tanto tempo afastadas e da fama que a seguia há tempos. Era um milagre, pensou Luana, um milagre! Decidiu seguir em frente.
- E o que você diria se soubesse que eu recebia para sair com esses homens? Que eles pagavam para me ter? - cacófato?
Luzia não moveu um músculo sequer. Apenas olhou nos olhos da amiga, respirou e respondeu:
- Você é bonita, estava prestando um bom serviço. Merecia algum reconhecimento.
Luana engoliu a seco a resposta. Que Frei Galvão que nada! Era Luzia quem o Papa Bento XVI deveria canonizar, estava realmente certa disso. Chegou a pensar que visitaria o pároco local para falar sobre o assunto. Era isso! Iria logo depois de falar com a amiga. Ele que a aguardasse. E prosseguiu bem mais à vontade:
- Sabe amiga, eu fazia programas. Deitava com homens de todos os tipos, cores e credos. Ai, credo! Fazia isso por dinheiro! Por dinheiro! – repete desesperada. Sou uma pecadora, uma mundana, uma mulher da vida – conclui.
- Calma Lú, fique calma – tranqüiliza Luzia carinhosa.
- Você não entende! – grita. Eu me vendi aos prazeres e à luxúria, agora estou envergonhada! Perdida! No fundo (humpf), sempre quis ter a vida que você teve. Ser como você. Sempre quis ter uma casa, um marido, filhos e até fazer um curso de Mandarim à tarde, sim, por que não? – confessa tentando tirar um corpo estranho da borda do nariz.
- Eu te entendo, Lú. No duro, entendo – conforta Luzia enquanto a amiga se explica.
- Desde que aceitei trabalhar à noite naquela boate famosa lá do centro, aquela com frente de castelinho, fiz tudo que você possa imaginar. Tudo! Você não acreditaria. – diz aos berros enquanto cai aos prantos sobre os pés de Luzia e se lembra que de hoje não passa: vai sugerir a santificação da amiga ao clero. Ah, vai!
Luzia, que ouvia tudo atenta e imparcial, de súbito se levanta, olha séria para a amiga aos prantos no chão e pergunta de bate-pronto:
- Você disse “boate famosa do centro” com "frente de castelinho"?
- Disse.
- E você disse “à noite”?
- Sim! Isso mesmo – responde Luana, que não entende a curiosidade repentina da amiga, mas tem certeza de que, dependesse dela, em breve a amiga estaria santificada.
- hmmm... Então foi por isso.
- Por isso o quê? Como assim? – pergunta a agora esbugalhada Luana, engolindo mais uma vez o choro.
- Por isso nunca a vi por lá.
E um silêncio estranho tomou conta da sala. Luzia, sempre serena e angelical, sorri para a amiga enquanto aprecia seu café sorvendo-o lentamente. Já Luana, que acabara de descobrir que nem toda história tem moral, se prepara para sair da casa da amiga levando consigo apenas duas certezas: definitivamente não falaria nada com o padre, não mesmo; e, de tudo que sempre quis fazer como a amiga, aulas de “Mandarim” ela certamente não precisaria fazer.
Amigos, amigos
- Olha lá! Olha lá!
- To vendo.
- E aí?
- Hmmm...
- Diz aí, vai.
- Casada, séria, tímida.
- Tímida?
- Ta bom. Tímida, mas deve ser uma máquina.
- Será?
- Eu acho.
- Ia?
- Fácil.
- Eu também.
- Pois é.
- E essa agora? Toda cheia de pressa, desconfiada.
- Sei.
- Parece que esconde alguma coisa.
- A bolsa.
- O que?
- Com essa sua cara de trombadinha tarado encarando ela, só pode ser a bolsa.
- Também não exagera.
- Pois é.
- Sei... E aquela lá longe?
- Sei não.
- Fala vai.
- Melhor não.
- Qual é, cara?
- Não to vendo direito...
- Mas o míope aqui sou eu!
- Eu sei.
- Então dá um chute.
- Melhor não.
- Afinou?
- Ta bom, eu ia bem fácil.
- É mesmo? Como assim?
- Ia, ora bolas!
- Peraí... Mas é minha irmã!
- Foi você quem perguntou.
- Seu...
- Pois é.
É fogo
Não é de hoje que essa história de que o homem descobriu o fogo dá o que falar. O assunto é tema de estudos sérios em todo o mundo e até já foi retratado no cinema pelas lentes de Stanley Kubrick, que achava que assim falava Zaratustra.
Mas seja lá quem tenha descoberto a primeira faísca, apertado e acendido, a verdade é que muito antes do homem meter o pauzinho onde não foi chamado já tinha gente colocando fogo na história.
A teoria, partilhada por este que vos escreve, e defendida por importantes correntes da antropologia mundial, dá conta de que muito antes dos machos da espécie pensarem na faísca, o fogo já morava ao lado. Na verdade, em uma caverna arrumadinha e praticamente porta com porta, se naquela época elas existissem.
O fato é que não era qualquer fogo. Era uma chama envolvida por roupa de pele animal, cheiro de animal, pés descalços e coberta por cabelos longos. Aliás, bem longos e nada sedosos, já que, devido ao simples fato de xampus, condicionadores e chapinhas ainda nem terem sido inventados, cabelo era literalmente mato. E foi ali, dando sustentação a essa pequena selva crespa e mal tratada que o verdadeiro fogo nasceu, ficando conhecido no dialeto da época apenas como “ehthacohisaboá”. Ou, traduzindo, “mulher”.
Desculpe se ao revelar esta teoria eu deixo aquele pequeno grupo de mamíferos sujos e mal vestidos das primeiras cenas de “2001 - Uma odisséia no espaço” sem moral. Mas aceite isso como uma pequena justiça com a mulher e com a história. Pois, francamente, esse papo de reunir os amigos pra mexer os pauzinhos veio bem depois, lá em Pelotas.
A verdade é que naquele momento, a mulher já colocava fogo na caverna e naquilo que um dia chamaríamos de cama. Fato que não mudaria, mesmo passados milhões de anos, assim como a forma de acender a tal chama. Que até hoje, se feita com jeitinho, exige, no máximo, uma roçada de pauzinho. Nada mais. Ou você não concorda que mulher é fogo?