Terça-feira, 7 de Abril de 2009

Sono pesado

Quando o médico finalmente conseguiu segurar aquela grande cabeça tomou um susto: o bebê não chorava. Mas também não estava morto, nasceu dormindo. E passaria a vida inteira assim, “descansando os olhos” como diriam anos depois.

Dormia o tempo todo – ou pelo menos todo o tempo em que não estivesse acordado, fazendo isso com a precisão e a habilidade de um profissional. Afinal, não era um mero “bom de cama” como podiam insinuar eventuais desinformados. Dormia no aconchego do seu colchão de molas encapadas e semi ortopédico, daquela marca conhecida, com a mesma destreza que caia no sono em circunstâncias, terrenos e condições das mais diversas. Com ele não tinha cerimônia.

Pela manhã, assim que acordava logo dormia de novo. No banho, no caso. E não se limitava a um cochilo enquanto lavava o cabelo. Dormia do começo ao fim, mas não sem se lavar direito. Conseguia dormir e tomar banho com a mesma facilidade com que aquele presidente ex-operário conseguia falar sério dizendo apenas bobagem.

E quando pintava uma necessidade mais específica, não era diferente. Dava seu cochilinho sentado no vaso sanitário ou em pé diante dele, reforçando sempre para quem duvidasse, que sabia o que estava fazendo. E de olhos fechados! – exclamava. Só abria antes da derradeira descarga, pois tinha por hábito conferir sua obra e estimar seu peso. De resto, também não errava o buraco do vaso, muito pelo contrario. Chegava até ao requinte de fechar a tampa quando terminava. Era um dorminhoco afinal. Mas um educado acima de tudo.

Levava uma vida normal, apesar do hábito peculiar. Na rua, por exemplo, não passava vontade. E se alguém o acusasse de “dormir no ponto”, tinha como resposta um orgulhoso “sim”. Mas sempre acordava a tempo de nunca perder o bonde. No caso, o ônibus. E tão logo estivesse dentro dele, tratava logo de arrumar um lugar pra se aninhar e viver uma deliciosa experiência de sono durante a viagem.

Por conta disso, muitos imaginavam que teria problemas quando o assunto era relacionamento. Ou o que acontece durante um. Ao que estavam enganados. Apesar de ter sido surpreendido várias vezes por uma súbita sonolência ainda nas preliminares, nessa hora e durante todo o tempo que a atividade durasse, não dormia. Pelo contrário. Estava sempre ligado, em riste por assim dizer. Apenas, como qualquer macho da espécie que se preze, não resistia a um bom cochilo depois de tanto tempo de cabeça quente.

Dormia no carro, na cama, fora dela e também no ponto, era mesmo bom nisso. Até que um dia dormiu na linha. Do trem, no caso. Era hora do “rush” como se diz por aí, a plataforma estava cheia. E depois de um dia de trabalho o sono chegou antes do trem. Quando viu, não viu mais nada. Passou de passageiro a “objeto na via” num piscar de olhos. Aliás, num descansar os olhos que, sem querer, acabou descansando todo o resto.

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Dormindo com o inimigo

Naquela noite prometeu a si mesmo que dividiria um pouco de sua vida e, possivelmente, uma quantidade razoável de DNA com alguém. Tinha um encontro, afinal. Uma nova garota que conheceu no Orkut. Amiga do amigo da amiga de uma garota onde já esteve perdendo algumas horas há tempos atrás, mas que não é da sua conta nem da minha.

O fato é que estava animado. O papo virtual rolou fácil e com qualidade de ambas as partes, o que, depois de algumas preliminares, poderia finalmente chegar aos finalmentes.

Então marcou com ela num barzinho da Augusta. A rua, no caso. E fez questão de chegar no horário, ou seja, uns trinta e tantos minutos depois do combinado. Ela já estava lá: linda, maquiada, elegantemente vestida até onde os olhos podiam ver e – acreditava ele – sem nada onde só seus pensamentos podiam chegar.

Desde o começo o papo rolou fácil. E o fluxo de cervejas que insistia em aparecer sobre a mesa só tornava o cenário ainda mais favorável: ambos de comunicação, gosto musical compatível, tatuagens, bandas alternativas no iPod e o melhor: ela tocava teclado.

Assim que descobriu a agradável coincidência sentiu a “deixa” para arriscar aquele ótimo trocadilho-convite, afinal, ele tinha um orgão. Um genuíno Gambitt 1977 que, diziam, era “dos bons”. Então acreditou. Fez o convite de bate-pronto e ela aceitou no mesmo lance. Foram então para o apartamento dele, onde ela tocaria o tal orgão... também.

Chegaram rápido, estavam próximos. Apartamento honesto, bem localizado, arejado, varanda que dava para a rua e visitas que davam na varanda, ou seja: perfeito. Logo esqueceram o teclado e partiram para instrumentos de sonoridade mais intimista, mais adequados à ocasião. Quando viram, já estavam na cama. Que por sinal, também era “das boas”.

Algum tempo depois sentiu então o cheiro do sucesso no ar. Teve certeza disso quando conferiu aquele corpo feminino de bruços, ostentando um sorriso satisfeito enquanto dormia feito um anjo. Respirou fundo apreciando a brisa, admirou a cena uma última vez e fechou os olhos. Tinha uma mão na nuca, enquanto a outra confirmava que aquele bumbum já apanhara o suficiente naquela noite. Era hora de descansar. Então se permitiu, finalmente, o sono dos justos.

Quando o telefone tocou pela terceira vez já eram sete da manhã. Horário em que qualquer ser humano temente a Deus e que ama a própria mãe não liga para outro. Mas era a mãe dela. E nesse caso cabe uma excessão à regra. Queria saber onde a filha havia dormido, com quem, essas coisas. E naquela altura, a filha também queria.

Disse então umas poucas palavras desconexas à mãe e desligou. Se sentiu estranha. Acordou numa cama que não era a sua, num quarto que não era o seu, lembrava pouco sobre a noite. Então foi direto ao banheiro, onde se deparou com um rosto borrado no espelho e por um momento pensou que fosse o Alice Cooper. Mas definitivamente não era, saiu com água.

Recomposta e segura de si, decidiu que ia embora. Ele ainda dormia, mas levantou para mandar um beijo e fechar a porta. Era um cavalheiro, afinal. Na volta iria dormir mais cinco minutinhos, mas não antes de fazer uma escala. Passou pelo banheiro para se livrar dos excessos da noite e daquela ereção matinal. Então percebeu que, sem querer, se livrara também de mais alguma coisa: seu iPod.

Estava completamente em pânico, afinal sabia que o deixara sobre a pia. Se sentiu lesado. Então, ligou para ela antes mesmo de lavar as mãos. Nunca tinha ligado para uma mulher no dia seguinte, muito menos tão cedo. Muito menos com a mão suja. Mas era preciso. E valeu a pena, pois ela voltou e devolveu o brinquedo que, segundo sua teoria, mesmo com uma superfície completamente lisa, havia “enroscado” em sua roupa.

Desfeito o mal entendido, se despediu com um sorriso amarelo e sem escovação dada a oportunidade. Foi a última vez que a viu. Assim como não viu nunca mais os únicos trocados que tinha na carteira naquela manhã e que, descobriria a seguir, também pegaram carona no “enrosco” do iPod.

Então foi trabalhar sem um puto. E na cabeça, pensava em usar o velho golpe da carteira esquecida em casa para poder almoçar. Afinal, naquela noite a janta custou o almoço.

Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

Antes tarde do que nunca

Nunca teve o hábito de chegar no horário. E não era por maldade, desleixo ou descaso com os compromissos ou compromissados. Não mesmo. Apenas já tinha desistido de tentar. Pois mesmo quando tudo parecia certo e finalmente chegaria antes, ou na hora, algo ou alguém conspirava contra e tudo saía errado.

Já perdera viagens, casamentos, a própria festa e a paciência. Seus amigos, claro, também. Afinal, era um atrasado nato.

Todos tinham certeza de que ele perderia o próprio casamento, caso se desse a esse desfrute um dia. Enquanto ele, tinha certeza de que só chegaria no horário em seu próprio velório. Mas ainda assim, certamente se atrasaria para o enterro. Afinal, se o destino já o ajudara a se atrasar a vida toda, na sua última hora seria legal que chegasse também um pouco depois.

Mas naquele dia algo saiu errado. Ou certo. Chegou cedo ao consultório do médico. Confiava naquele profissional que passa anos se dividindo entre faculdade, residência, plantões e os seios das estagiárias. E que, provavelmente por isso, aprende muitas lições, mas esquece o jeito de passá-las para o papel. Pelo menos de forma legível.

Estava disposto a mudar, melhorar. E o primeiro passo foi justamente procurar aquele médico, aquela especialidade. O segundo, seguido do terceiro, quarto e de todos os próximos e apressados passos, foram dados rumo ao consultório, onde chegou com dez minutos de antecedência.

Tempo suficiente para relaxar, analisar a recepcionista, folhear aquela Caras velha cheia de velhas caras. E claro, tempo para conferir o que era tendência no verão de três ou quatro temporadas atrás no sebo de revistas sobre a mesinha de centro. Enfim, estar ali tão cedo já era um recorde. Sentiu um cheiro de mudança no ar, mas foi logo interrompido pelo cheiro de mofo do consultório.


Tudo caminhava de acordo com aquilo que os mais pontuais chamam de “o combinado”. E mesmo passados quarenta minutos da sua chegada, sendo meia hora só era de atraso do médico, ele ainda se mantinha paciente por se sentir no que pensava ser o prazo de tolerância.

Mas começou a ficar agoniado. A visão da recepcionista a essa altura era ainda mais desagradável do que o choque inicial. Então teve uma dúvida da qual, certamente, todo mundo ali compartilhava, só não tinha coragem de se manifestar para não soar deselegante ou causar uma gargalhada coletiva, ou seja: “como raios essa criatura consegue se levantar da mesa?”

Não precisou de muito tempo para encontrar a resposta. Num golpe de agilidade digno dos seres mais leves, aquela estrutura avantajada e saliente se ergueu como que por mágica. E mesmo com alguma dificuldade visível, mas eficiência invejável, passou rebolando pela mesa e ainda jogou um charme para quem quisesse ver. No caso, ninguém. Era um milagre, tinha certeza disso.

Recuperado do susto de presenciar a ação de Deus diante dos seus olhos, aproveitou para conferir novamente o relógio. O que já tinha feito uma centena de vezes na última meia hora e vinte minutos. E a surpresa foi tão grande quanto ver a montanha não apenas levantar, mas ir a Maomé diante de seus olhos incrédulos. Já se passara quase uma hora desde o horário marcado e nada. Simplesmente não chamavam seu nome. Ao contrário. Dona Isso, Senhorita Aquilo, Seu Coisa Alguma, mas seu nome nada.

Então um filme passou pela sua cabeça. E ele assistiu sem resistir. Estava ali sem nada melhor para fazer, não é mesmo? Estava de bobeira há pelo menos uma hora, as revistas já eram velhas há pelo menos um ano, a recepcionista parecia ter engolido as duas antecessoras, o que mais podia dar errado? Então ficou atento à película imaginária. E lembrou de todas as vezes que se atrasou. Aproveitou para lembrar daquele atraso que salvou sua vida e pensou que este talvez fosse igual.

E seguiu vendo o filme, que entre uma cena e outra, fazia uma pausa para mostrar o ensaio sensual de alguma ilustre desconhecida cheia de curvas e quase nenhuma roupa. Até que a porta se abriu e ouviu seu nome.

Quase não acreditou, mas se despediu das garotas imaginárias e apertou o pause no filme para, mais de uma hora de espera depois, entrar de uma vez na sala. Tinha muito a dizer ao médico, inclusive desaforos. E não exitaria em colocar a família alheia na discussão. Não desta vez. Estava cheio de dúvidas e precisava desabafar.

Mas depois da espera, do filme da sua vida e das garotas, sentiu que nada era mais importante do que esclarecer uma única dúvida naquele momento. Então olhou sério para o médico, respirou fundo, e depois do murro na mesa disparou: “por que raios alguém precisa marcar consulta com um mês de antecedência e chegar antes do horário, se nunca vai ser atendido nele?”


E saiu da sala sem esperar uma resposta, deixando incrédulos o médico e cada metro cúbico de sua farta recepcionista. Sabia que levaria de volta consigo todas as suas dúvidas. Mas levaria também duas certezas: nunca mais sentiria remorso por chegar atrasado, e claro, bateria a porta do consultório com força assim que passasse por ela.

Domingo, 2 de Novembro de 2008

Um bom lugar

Por mais que o simpático Dr. Drauzio Varella passe a vida tentando explicar o sentido dela, nunca vamos entender porque viemos ao mundo. Muito menos, por que passamos tantas dificuldades na vida tentando se encontrar.

Logo no começo, quando ainda não somos nem desejo, somos obrigados a conviver com milhões de irmãos menos espertos que nós: os espermatozóides.

Como sabemos, só não lembramos, a vida nesse momento é um saco e vivemos no maior aperto. É uma fase tensa e qualquer agitação dá inicio a uma disputada e mortal corrida, que começa no testículo do nosso pai e termina com apenas um sobrevivente (eu, você, sua irmã, enfim) no útero da nossa possível futura mãe. Ou não.

É uma viagem difícil. Milhões de espermatozóides irmãos nadam, nadam e morrem na praia. Como os do namorado da Cicarelli. Outros menos providos de sorte acabam descendo pelo ralo, viram hidratante de pele, gel de cabelo, caem no olho, ou são mais ousados e terminam na merda mesmo. É a seleção natural e apenas um consegue chegar ao sonhado destino: o óvulo.

Lá dentro, já acomodado, a estadia é agradável e a vida é uma moleza. Comida, bebida e nada de roupa. Até por que, neste momento ainda nem sabemos que um dia precisaremos disso.

Esta é realmente a primeira melhor fase do homem. Nela não precisamos conviver diretamente com ninguém, só com nossa anfitriã e dona da pensão. E mesmo assim, nem chegamos a vê-la. Na verdade, é ela quem fica o tempo todo tentando nos ver.

A propósito, muitas pessoas que conheceremos ao longo de nossas vidas reclamariam, mas por enquanto nossa mãe não reclama quando chutamos as paredes ou mijamos no meio da casa. Não ainda.

Mas como nada nessa vida é eterno, nem a Dercy Gonçalves, temos nove meses para abandonar nosso primeiro lar, que por sinal, fica cada dia menor. Isso quando não somos despejados antes. De qualquer modo, seja no prazo ou antes dele, somos sempre colocados pra fora à força. E quem resiste, vai a fórceps mesmo.

E tudo isso para que? Para nascer nu, apanhar logo na estréia e ver todo mundo rindo da sua genitália roxa enquanto choramos feito um bebê recém nascido que realmente somos?

Talvez fosse melhor não sair, continuar ali no puxadinho da barriga mesmo. Assim o homem não precisaria passar a vida inteira tentando encontrar seu lugar aqui fora. Até porque, o homem sempre soube onde é este lugar: no útero. Definitivamente, um bom lugar para se estar: quentinho, úmido, aconchegante, e o melhor, dentro de uma mulher.

Não é à toa que depois de nove meses esperando para sair, o homem passa a vida inteira tentando entrar.

Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Mais duas, a conta e uma loira pra viagem

15h, to no horário
Chego ao aeroporto de Recife no horário, o vôo também. Desta vez parece que chegarei ao destino com as bagagens. Já tinha até esquecido como era. Há apenas duas semanas anteciparam a decolagem com minha bagagem embarcada. Resultado: eu em Recife, com apenas uma cueca.

Após fazer o check-in, recebo um formulário para informar os dados de alguém que deve ser avisado em caso de emergência. Que tipo de emergência? - penso. Mesmo assim, anoto o contato e peço que avisem com jeito, minha mãe é hipertensa e tal.

Assustada, a atendente avisa que é apenas rotina, que vai dar tudo certo. Como pode dar tudo certo? - digo a ela. Se cair, caiu! Sem chance - completo. Enquanto isso uma senhora começa a suar na fila. Meio assustada, a atendente apenas abre um sorriso amarelo e se despede. Aproveito e vou tomar uma cerveja até a hora do embarque.

16:10h, hora do vôo
Finalmente o avião decola. Enquanto ainda subíamos, um barulho estranho interrompe minha leitura. Ninguém nota. Mas várias horas de vôo me diferem dos turistas sazonais e logo percebo que algo aconteceu. Fico alerta.

Uma comissária passa rápido rumo à cabine. Em seguida outra. Mas tenho certeza de que a visita não tem nada a ver com aquela piada em que o comandante deixa o microfone aberto, dá uma espreguiçada e diz que tudo que queria naquele momento era um café e depois um favor oral. Até porque, se fosse isso não precisaria de duas comissárias... neste ponto fico em dúvida, mas volto ao tema e concluo que realmente tem algo errado. E não é o sexo oral a três.

O avião continua subindo, o comandante avisa que um problema no trem de pouso dianteiro nos levará de volta à Recife. A confusão está armada.

Desespero, pânico, crianças e mulheres chorando e homens procurando um garçom. Eu, naturalmente, sou um deles. Surge a história real: “sim”, nosso avião tem um problema grave e “sim” pode se espatifar na aterrissagem. Concluo que deveria ter pedido mais duas e a conta antes do embarque. Não é justo, lamento.

17h, o tumulto continua
Pessoas mudam de lugar para reunir as famílias, são seus últimos momentos afinal. Pessoas rezam pedindo desculpas para o vizinho. Outros pedem bebida alcoólica, eu também. Afinal, ninguém quer que a última hora do gole seja pessoalmente com o Santo e tal. Mas a lei seca muda nossos planos.

Como se isso não bastasse, não vejo nenhuma loira interessante no avião para me fazer companhia e amenizar a dor em meus últimos momentos. Triste fim, penso.

17:40h, muito combustível para queimar
A única chance de diminuir o risco de explosão durante a aterrissagem é voar algum tempo para queimar combustível. Isso diminui o peso da aeronave e o combustível nas asas. Assim, já que voaremos em círculos por mais um tempo, resolvo dormir. Não vai mudar nada ficar acordado ouvindo as lamentações, principalmente porque o álcool foi cortado, concluo.

18:30h, chega o grande momento
Mais de duas horas voando sobre Recife e finalmente chega a hora. A calma aparente é substituída pelo pânico inicial e o comandante avisa que iremos aterrissar.

Todos já sabem que há risco de explosão. As asas podem tocar o chão e espalhar combustível e turistas pela pista. Além disso, neste caso seria preciso evacuar o avião com ele pegando fogo. Então tento imaginar uma picanha fugindo sozinha da churrasqueira em brasa, mas isso só piora as coisas.

Chega a hora do tudo ou nada. Com as duas cabeças entre as pernas e a mão na nuca, aguardo o impacto e o pior. Mas o que é "o pior" a uma altura dessas? Chego a achar que beber a próxima com o Santo já é uma boa.

Para o casal vizinho de poltrona, em plena lua-de-mel, só desejo que já tenham feito a prévia antes de casar. Terminar sem sentir o gosto do pecado é sacanagem. E pelo jeito como eles rezam fico até comovido.

Cobertura do Fantástico, alerta geral e fim do suspense
O alerta foi dado. Repórteres mandando flashes ao vivo para suas redações. Bombeiros espalhados, espuma na pista, ambulâncias, a torcida do Sport Recife comovida, enfim, tudo pronto para rodar o filme. E desta vez, nós passageiros somos os protagonistas.

Dentro do avião pânico instituído e generalizado. Então o avião toca o chão. Um grande impacto dá lugar a muito barulho e gritaria. A seguir, alguns segundos de silêncio mórbido e ouve-se palmas para o piloto: aparentemente todos vivos, ou bem recebidos no céu.

Levanto uma das cabeças e, já com ambas em seus devidos lugares, noto que realmente o pânico acabou. Estamos a salvo. Pessoas se abraçam felizes enquanto o casal ao meu lado agradece desesperadamente a Deus a segunda chance. Lindo.

Quando saio calmamente do avião procuro evitar as reportagens. Essa gente da imprensa distorce tudo. O que quero mesmo é resolver duas coisas imediatas: uma, correr até o bar do aeroporto e pedir duas loiras geladas. Serão por conta da companhia aérea e coisa e tal. A outra, e não menos importante, é achar uma loira quente e farta antes da próxima decolagem. Afinal, nunca se sabe quando o próximo vôo será o último.

Atendendo a milhares de pedidos, um dos meus textos mais antigos. Mas nunca tão atual.

Esta história é baseada em fatos reais. Portanto, qualquer semelhança com fatos, pessoas, lugares ou situações pode não ser mera coincidência.

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

Remando de braçada

Depois de muito tempo pensando sem chegar à conclusão nenhuma, parou de pensar e resolveu agir. Afinal, entre outras coisas, lembrou daquilo que uma grande amiga havia dito um dia antes e que adotaria como filosofia: “Quem não tem tempo de sobra, arruma tempo para tudo. Quem vive ocioso, nunca arruma tempo para nada.” Era o seu caso. Então, em vez de pegar a vara e ir pescar, preferiu vestir a sunga e cair na água atrás de peixes maiores: foi nadar.

De cara, o desafio virou festa. Até o fato de acordar às seis da manhã foi motivador. Chegou à academia em cima da hora, claro, mas como sempre teve grande facilidade de se relacionar no ambiente “malhação”, logo fez amizade na recepção. Lembrou-se também que sempre se entendeu bem com suas professoras de natação, fato que comprovou assim que foi recebido pela nova treinadora com um beijo de “bom dia”, “bem-vindo”, “bela sunga”. Definitivamente, estava no caminho certo.

Então foi apresentado ao ambiente líquido pré-aquecido. Sim, às sete da manhã, só nessas condições pra entrar numa piscina. Foi quando sentiu que os bons tempos estavam voltando. Há anos não caía numa piscina como aquela e não se sentia tão bem. Mas antes da re-estréia, tratou de alongar a musculatura que ia utilizar, enquanto o frio se encarregava de retrair o que não usaria.

E caiu na água aliviado, se sentindo em casa. Naquele momento, foi como se o seu único problema fosse o espaço que o separava daquela que o auxiliaria nos próximos 45 minutos. Espaço este que, assim que saiu da piscina e se deparou com o olhar de total aprovação da treinadora, teve a certeza de que diminuira consideravelmente. Agora era só continuar remando de braçada, pois os resultados já começavam a aparecer.

Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008

O diabo veste preto... e é emo

Era final de uma sexta-feira quando resolvi entrar na estação Consolação do Metrô, ali na Av. Paulista. Foi nesse dia que encontrei uma nuvem de emos, esses adolescentes de sexo, personalidade e caráter indefinidos, e que só tem duas certezas na vida: a de que querem morrer, e a de que querem ouvir CPM22 antes. Foi também nesse dia que percebi que nunca vou entender essa tribo, raça, praga ou o que quer que isso seja.

Os emos não são rebeldes, muito pelo contrário. São mansos, pacíficos, e porque não dizer, verdadeiras flores. Negras, no caso. Afinal, emo que é emo se veste de preto e assina embaixo. Mas claro, não sem antes ir aos prantos. Sim, porque emo quando não chora na entrada, chora na saída, ou tatua as lágrimas no rosto pra não perder a viagem.

Como não bastasse a falta de rebeldia, o emo típico e autêntico também não tem causa. Duvida? Pergunte a um deles onde ele pretende chegar, ou o por quê de tanta tristeza, e das duas uma: ou você se mata e realiza o desejo de dez a cada dez emos, ou como um típico e deprimido emo, também cai em prantos. Mas de raiva.

Na verdade o emo não sabe porque chora. Talvez seja culpa do cabelo, que, este sim, é rebelde e insiste em ficar ridiculamente sobre um dos olhos enquanto o outro tenta ver o mundo num tom cinza. Talvez seja culpa das brigas com a irmã, que não empresta a chapinha, ou demora demais com ela enquanto o emo crespo espera a vez pra alisar as madeixas sobre os olhos sempre pintados.

Ou será culpa das músicas do NXZero, que é muito deprê e o emo insiste em ouvir? Definitivamente o emo chora por tudo. Porque é triste, porque que o mundo é injusto, porque o sol é quente, porque a noite é escura. E chora até porque o Corínthians foi rebaixado, o que na verdade é motivo de alegria, não o contrário.

O emo é um deprimido nato, uma flor na essência, e como não é um rebelde, naturalmente não tem causa. Até porque, se tivesse ela seria perdida ou ele não seria capaz de enxergá-la, já que só tem um olho míope e outro sempre coberto pelo cabelo.

Mas se tem uma coisa que não se pode dizer do emo é que ele não tem trilha sonora. Aliás, ela é bem farta e cheia de bandas diferentes cantando músicas iguais, que são na verdade uma variação de grandes sucessos do passado, mas com uma roupagem mais justa, rasgada nos joelhos e com boné de caminhoneiro americano meio de lado para cobrir o cabelo sobre um dos olhos.

Sim, afinal, muito antes do CPM22 sentir seu mundo acabar, perder o chão sob seus os pés e toda aquela coisa triste, Odair José, Reginaldo Rossi e até mesmo o rei Roberto Carlos, já se revezavam cantando essas desilusões que se transformariam no embrião do som que embala essas mentes vazias e tão sensíveis.

Hoje essa trilha é composta por bandas como NXZero, CPM22, Fresno, e internacionais como My Chemical Romance, 30 seconds to algum lugar, entre tantos outros. Mas essa lista só não é completa porque falta o grande visionário do movimento emo, que atualmente permanece no esquecimento. O que é uma grande injustiça.

Afinal, foi o Wando com sua sensibilidade à flor da pele e seu olhar de peixe emo que, além de despir a intimidade feminina e construir a maior coleção de calcinhas da música brasileira, lançou lá atrás a moda que hoje recebeu chapinha e franja. Ou você tem alguma dúvida de que acelerando o ritmo, colocando um vocal ruim e mais uma guitarra mal tocada, refrões como “você é luz, é raio, estrela e luar” renderiam discos de ouro, se isso ainda existisse?

Mas se a música é uma coisa bem definida na vida do emo, o mesmo não se pode dizer do sexo. E se você já achava que discutir o dos anjos era um problema, certamente é porque ainda não discutiu o sexo dos emos.

O que se sabe muito por cima é que, por mais que todas as evidências, sombras e batons pretos possam provar o contrário, o menino emo não é uma menina. Tá certo, ele tem tudo para funcionar como tal, mas realmente não é. Só que também não é menino. Talvez seja uma minhoca. Ou não.

Depois de atravessar aquela multidão de aborrecentes de luto pela própria morte ainda em vida, confesso que me senti meio mal. Meio pra baixo. Quase com vontade de cantar uma canção emo, sei lá. Então tratei de reagir, afinal, filhote de pombo e emo adulto não existem. E eu não seria o primeiro.

Então, peguei o primeiro trem para o bom e velho Sapopemba, onde os emos não têm vez e os homens não amam coisas, até porque, isso é coisa de emo e são paulino. E chegando lá, me senti melhor.