Assim que viu mãe e filha caminhando pela praia, cada uma conduzindo lenta e alegremente sua própria centena de quilos, resumiu definitivo para seu filho impressionado: “Herança genética, meu filho… herança genética.”
A pergunta que não quer calar
Ela já se arrumava há mais de uma hora e ainda não estava pronta. Impaciente, ele se limitava a fazer aquilo que todo homem temente a Deus e com um pingo de bom senso deve fazer numa hora dessas: manter ao menos o ar de tranquilidade. Mesmo que, no fundo, esconda nessa serenidade toda sua falta de paciência e saco pra aguentar a situação.
Era só um expectador. Pelo menos até ouvir a segunda pergunta mais difícil e temida por um homem: “Amor, você acha que eu tô gorda?”
A primeira é, sem dúvida: “Você pode me explicar o que significa isso?”
E antes de responder a pergunta que nunca quer calar, mas sempre deixa ao menos um dos dois sem fala, achou por bem pensar nas possibilidades. E claro, suas consequências.
Então começou:
Situação 1: dizer que não sabia
- Amor, você acha que eu tô gorda?
- Não sei amor.
- Como não sabe?
- Ah, amor… Não sei…
- Então eu tô gorda, é isso que você quer dizer!
- Epa, eu não disse isso!
- Homem é tudo igual mesmo!
- Mas eu não fico te medindo o tempo todo, não tenho como saber se você engordou ou emagreceu. Foi só isso!
- Assuma o que você disse!
- Mas amor…
- Não tem amor! Você acaba de dizer que eu sou uma baleia e ainda vem com “Amor…”?
- Mas eu não disse nada!
- Pois é! Olha essa sua cara cínica de deboche! Ainda acha que precisa dizer alguma coisa? Mas você vai ver, isso não vai ficar assim!
- Eu só…
- Me deixa! Se você acha que eu tô gorda procure uma melhor! Uma qualquer que seja gostosinha 24 horas por dia e ainda aguente você!
- Mas…
- Não tem mais nem menos! Chega! Vá procurar sua magricela, se é que ainda não encontrou! E some da minha frente! Se era isso que você queria, agora vai ter! Me-es-que-ce!
E ela sairia batendo a porta, certa de que aquele que “não sabe”, na verdade sabe! E isso não tem desculpa.
É, essa não ia colar. Tinha que pensar mais e pensou.
Situação 2: discordar
- Amor, você acha que eu tô gorda?
- Que nada, amor! Você está ótima. Uma delícia!
- Como você é mentiroso! Tá falando isso pra tentar me agradar, mas no fundo você me acha uma enorme. Um elefante com tetas!
- Que nada, benzinho…
- Benzinho os escambau! Pensa que não te conheço? Que não vejo como você olha pra namoradinha magrela do Mario Otávio? Confessa! Você morre de inveja dele, fala pra todo mundo que ela é um saco de osso, mas queria mesmo era palitar os dentes com ela, seu safado! Você é um cínico descarado, isso é o que você é! Não tem nem vergonha de mentir com essa cara lavada e enxaguada!
- Mas amor, eu te acho…
- Uma gordelícia? Foi isso que você quis dizer, tenho certeza! Confessa, seu cara de pau!
- Claro que não, eu só queria dizer que…
- Chega! Já sei o que você queria dizer porque você já disse. E se você acha que eu sou um elefante, azar o seu!
- Mas…
- Some da minha frente e não me procure por um mês! Não, melhor: não me procure mais! Some! Some! Antes que eu faça uma desgraça! Aliás, não sei onde eu ando com a cabeça que ainda não meti a mão nessa sua cara depravada! Some daqui!
E ela colocaria ele pra correr sem, sequer, ter noção do que estava acontecendo.
Enfim, o médico já tinha avisado pra não discordar, então…
Situação 3: concordar.
- Amor, você acha que eu tô gorda?
- Ah, docinho, talvez um pouquinho… Mas bem pouco mesmo, entende?
- Como é?!
- É só excesso de gostosura, meu doce…
- Então quer dizer que você me acha uma gorda? Uma balofa?
- Claro que não, meu tesouro. Não foi isso que eu quis dizer…
- Eu sei muito bem o que você quis dizer, aliás, o que você disse com todas as letras! Seu monstro insensível e machista de uma figa!
- Mas eu só disse que…
- Eu tô tão gorda que sequer passo na porta! É, foi isso que você disse!
- Como assim, ternura?
- Pare de ser sem vergonha e seja homem já que sua mãe não é! Assuma as coisas que você diz! Assuma, homem!
- Mas meu doce, o que eu quis dizer foi que…
- Pro inferno com suas desculpas! Agora é tarde demais, o mal já foi feito e você sequer assume!
- Eu só…
- Fique sabendo que se você me acha esse monstro enorme que, como foi mesmo que você disse? Ah, claro: “que não cabe nem na caçamba de um caminhão” Azar o seu! Tem quem queira. E como tem, ahá!
- Como assim?
- Pois é. Ou você pensa que o Serjão tem esse nome por quê? Pronto, falei mesmo!
- Mas… Quer dizer que você e o Serjão…
- Você não me acha uma gorda? Pois ele não acha. E quer saber? Estou de saída e você deve imaginar com quem…
- Mas e eu?
- Fique aí sozinho com a sua sinceridade desnecessária, oras! Vocês se combinam!
E ela sairia pisando forte, confiante, certa de que o personal sim era homem de verdade. Enquanto ele ficaria ali, juntando os cacos do que sobrou da sua dignidade. E com a certeza de que o Serjão, aquele canalha, ou era cego ou um grande mentiroso.
Então analisou cada uma das possibilidades e entendeu que só restava uma resposta a ser dada. Mas não daria. Nem morto.
E em seu velório, apenas algumas horas depois, ninguém entendia o ocorrido, mas também não ousava perguntar a respeito. Afinal, para certas perguntas o silêncio é a melhor resposta.
Não perturbe
Depois que a terceira bolada acertou a mesinha de plástico, deixando cheia de areia aquela porçãozinha de camarão no alho suculenta – é, aquela… – e derrubando na areia sua cerveja sagrada e estupidamente gelada, tirada diretamente daquele lugar que só a foca sabe onde é, tomou uma atitude drástica. E irreversível.
Depois ficou tranquilo. Contemplando a beleza de uma bela tarde de sol, mar, bumbuns desfilando orgulhosos suas formas arredondadas por Deus. E claro, aproveitando aquela areia fresquinha entre os dedos dos pés pra chafurdar como que ralando o queijinho que se acumula naquela região.
Uma tranquilidade suprema. Interrompida apenas pelos gritos desesperados de uma mãe procurando pelo filho que, segundo ela, “jogava bola por ali, mas sumiu do nada!” Gritos altos, mas que não o abalavam. E manteve aquele sorriso típico dos maus. Dos bem maus. Enquanto o sol tocava o horizonte e uma frase se repetia na sua cabeça: “bem feito!”
O sono dos justos
Depois de tanto ele insistir, ela cedeu. E deram a tal “rapidinha pra relaxar antes de dormir”
Enquanto a respiração ia voltando ao normal e ele se preparava para finalmente relaxar e dormir, afinal foi pra isso que pediu a “rapidinha”, aquilo que todo homem teme que aconteça nessas horas aconteceu: ela puxou assunto.
- Sabe, estava aqui pensando…
- Hm…
- Tenho uma coisa importante que eu queria te dizer…
- Huhum…
- Sério!
- Tá, conta.
Ela respira fundo fazendo aquele olhar frágil, como que estivesse em plena cena da novela das nove e meia com um galã da Globo. Ela sente que a câmera imaginária está nela agora. É um close bonito em seu rosto enrubescido pela emoção do momento, então começa:
- Sabe, a vida é tão engraçada…
E faz uma pausa dramática na explanação para olhar para o infinito. É o seu momento! Ela sabe que a câmera imaginária está mais fechada em seu rosto do que nunca, são milhões de expectadores ansiosos pela fala seguinte. Ela valoriza, respira fundo, ganha tempo. É uma pausa longa. Infinitamente maior do que a paciência do parceiro pode esperar e seu sono permite. Então ele reage:
- Verdade, concordo! Muito engraçada mesmo, rio demais dessa vida. Tem razão… Agora é minha vez!
- Ei! Mas eu…
- Minha vez! Sabia que hoje é Dia do Amigo?
- Mas eu ainda não…
- Pois é. Um amigo que me contou.
- Tá louco?!
- Bom, já dividimos novidades demais por hoje, vou dormir. Boa noite, querida…
- Eu não… Ei!
- Zzzzz… roooooonc! Zzzzz…
E ficou “P” da vida olhando para o teto. Sabia que a câmera imaginária agora gravava outra cena, em outro quarto, em outra novela imaginária da vida a dois. Ele, desmaiado, roncava feito um porco. Mas não sem ostentar no rosto aquele sorriso. É, aquele mesmo! Meio de lado, cínico. Típico de quem tem o sentimento do dever cumprido, mesmo que rapidinho, e merece agora o sono dos justos.




