O ano do "believe"
Aquele seria um ano diferente. Decidiu isso assim que o ano anterior sumiu no meio da fumaça dos fogos sobre o mar de Ubatuba, onde, estranhamente, não chovia. E não estava brincando, acreditava na proposta. Por isso faria como leu em algum lugar – ou teria visto em um filme bíblico? -, ou seja, acreditaria.
Começaria fazendo daquele um ano de realizações, mudanças e desapego. Só não mudaria de time, de sexo, nem passaria a amar coisas como o morango. Até porque, fora criado de acordo com o velho manual das tradições e dos bons costumes, onde se lê em letras garrafais e parágrafo único que “Homens não amam coisas nem frutas. Apenas gostam, ou não gostam.” O resto é emo.
E começou ali mesmo: pés na areia, cerveja gelada em uma mão e na outra, firme, a cintura daquela com quem passaria, sem grande esforço, aquele e todos os outros momentos a partir dali.
Exercitava assim a renovação, reforçando para si mesmo a certeza típica dos que acreditam que podem realizar. E podia. Pois enterrara ali, em meio a latinhas de cerveja e garrafas de champanhe vazias, todas as tormentas vividas até então. Além disso, inaugurava naquele momento uma nova fase em sua vida.
Resolveu então conferir no céu os fogos que ainda queimavam festivos. Era reveillon, afinal. Entendeu com isso que era o momento de pisar firme sobre o passado para garantir que ele jazia enterrado bem ali, na areia da praia. Teve com isso uma feliz confirmação.
Então respirou fundo. Ostentava no rosto aquele sorriso sarcástico que a oportunidade pedia. E enquanto a praia inteira dava boas vindas ao ano dos que acreditam, escorregou discretamente pela cintura dela até alcançar aquele bumbum que Deus colocara na sua mão, segurou firme como se deve e repetiu pra si o que seria seu mantra a partir dali: “Sim... É disso que eu to falando...”
Festa de verdade
Festa de criança que se preze tem que ter palhaço. Sério. E não to falando do pai do aniversariante, que paga a festa, convida um monte de amiguinhos da criança, sobrinhos e vizinhos e ainda leva a fama de pão duro porque fez a palhaçada de aceitar refrigerante genérico do buffet em vez de Coca-Cola.
To falando daqueles que fazem outro tipo de palhaçada. Festa que é festa só é festa se tem palhaços de verdade, com cabelo de fogo, batom borrado na boca, sapatão do Bozo e aquela careca ridícula, mas tão engraçada que faz até a criança mais sem graça chorar. Mas de rir.
E tem que ter brinquedo pra criançada se cansar de tanto brincar, como gangorra, balanço, cama elástica, escorregador, parede de escalada, piscina de bola, tiro ao alvo, tirolesa, tudo. Festa de criança pra ser assim, boa, tem que ter ao menos um mini parque de diversão, né não?
Mini creche também tem que ter. É lá que aquelas babás belisconas ganham honestamente suas vidas e cuidam tão bem dos nossos filhos, mas tão bem, que chega dói. Pergunte para as crianças.
Porcarias pra comer, isso nunca pode faltar! Não existe festa de criança sem aquelas frituras fantásticas e engorduradas naturalmente no mesmo óleo do kibe e de tudo que for frito na oportunidade.
Batatinha no vinagrete então, nem se fala! O que dizer de uma festa onde você não encontra aquele balde cheio de batatinhas pra servir no copo plástico e comer com palito de dente, ou deixar na mão das crianças pra fazer guerrinha? Não é festa! Não de criança!
Mãe desesperada e estressada não precisa, mas tem também. E muita. Afinal, não existe criança santa, logo, não existe mãe que não esteja desesperada ao misturar seu pequeno demônio a uma porção de outros iguais ou piores que ele. A verdade é que mãe sabe o filho que tem. E se diz que não sabe ta fingindo.
Com o circo montado, comida e diversão à vontade e crianças posicionadas, resta aos pais esperarem as mães estressadas saírem à caça dos filhos para que eles possam sair também. Mas à caça de outras mães, as menos estressadas e consequentemente mais perfumadas e arrumadas. Sabe como é, em festa de criança também tem mãe desacompanhada do marido que, espertamente (ou não), conseguiu se safar do calvário.
Mas de volta à festa, não dá pra imaginar uma festa sem musica infantil. Xuxa, Angélica ou Eliana dedinhos, não importa. É impressionante como criança gosta dessas coisas e por isso não pode faltar. Sorte é que algumas superam a fase, evoluem e viram adultos saudáveis, amantes do bom e velho rock & roll, do jazz, do R&B. Outras, no entanto, nunca superam essa fase chegando ao auge da vida adulta viciados em pagode, axé e até em funk carioca.
Normalmente festa de criança é tudo de bom, para as crianças. Muita diversão, amiguinhos, brinquedos, bolo, doces, salgadinhos e refrigerante a rodo. Por isso o nome, festa. E festa que é festa, tem que ter cerveja. Mesmo a infantil. Só assim pra aguentar tudo isso numa boa e esquecer no dia seguinte.
Na última festa de criança que eu fui não tinha. Por isso ainda lembro de tudo. Ressaca moral...
Quanto fogo!
Se cruzaram pela primeira vez no cafezinho da firma. Ela não bebia café, mas acompanhava as amigas na pausa que, garantiam, servia para esticar as pernas. Ele, assim como ela, também não era dado ao hábito. Dizia que só tomava de vez em quando, por causa do sono e coisa e tal. Mas passava sempre por ali para conferir se as pernas femininas eram tão boas esticadas quanto tensas sob as mesas do escritório. Sempre uma feliz constatação.
Mas mesmo estando sempre “por ali”, até então, nunca haviam se encontrado. Não até aquela manhã. E assim que se viram se devoraram. Com os olhos, no caso. Quem presenciou garante que mesmo limitados a uma simples troca de olhar, ainda assim, foram muito além do que se pode ver. Pelo menos por cima da roupa.
Era como o que os especialistas em comportamento corporativo e leitores da revista VOCÊ S/A chamam de “atividade suspeita potencial”. Aquilo que o pessoal do happy hour define apenas como “tá rolando” e que Dona Lurdinha do financeiro, solteira, vinte anos de casa, quarenta de vida e quase nenhum de cama, resume como “pouca vergonha da grossa". Seja lá como for, a chama estava acesa. Só cego, por motivos óbvios, não via.
Então começaram a sair. Primeiro com o pessoal da firma, só para almoçar. Depois para confraternizar, tomar um chope, mas tudo sempre dentro dos conformes. Só que na mesa, ninguém duvidava que aquela troca de olhares prometia. Aquilo ia “dar caldo”, comentava-se à boca pequena nas bordas da mesa, enquanto Dona Lurdinha, sempre azeda, acreditava que, no máximo, ia “dar rolo”. E deu.
Um dia, finalmente, marcaram de sair. Mas nada de amigos do trabalho ou qualquer convidado eventual que pudesse causar dispersão. Só os dois. O foco agora era curtir a santa trindade da conquista saindo pra “sei lá, tomar um chope, um banho ou um suco...” – disparou ele ao convidar. Ao que ela topou de imediato.
Ele chegou na hora, ou seja, meia hora depois do combinado. Ela pronta, estava ansiosa e já fumava o terceiro cigarro. Quando a campainha tocou, tratou logo de sair, pulando qualquer formalidade já que não havia muito tempo a perder. Tanto que, assim que conseguiram se desgrudar para ligar o carro, decidiram que pulariam também o chope. Seguiriam direto para o banho, deixando o suco e qualquer repositor liquido para o final, quando, a julgar pelo ritmo, certamente precisariam.
No caminho, enquanto a mão dele descansava no joelho dela, a mão dela se cansava em algo também rígido. Mas que certamente não era o joelho dele. Seguiam direto para um lugar assim assim. Desses discretos, onde só entram casais.
Assim que chegaram, mal podiam esperar para colocar fogo naquele lugar. Então colocaram: assim que mataram sua sede ardente e acabaram dormindo sem apagar aquele cigarrinho pós-ato, deixando este trabalho para os bombeiros.
Apagado o incêndio, não sobrou quase nada. Apenas dois corpos que os bombeiros tiveram que separar com serrote. E durante o velório, caixões lacrados, lado a lado diante de todos como nunca, um comentário era inevitável nas rodinhas de conhecidos e curiosos que se formavam em volta da garrafa térmica de café madrugada adentro: “Esses dois hein? Que fogo...”
Amigo mesmo é o Mario, conhece?
Aquela segunda-feira não poderia ser melhor: cinza, chuvosa e fria. Tão fria quanto aquele lugar que só a foca sabe onde é.
Então, atravessou o escritório encarando a todos com aquela cara de mau humor típica das segundas-feiras cinzas, chuvosas e frias. Ligou o computador e assim que o programa de mensagens instantâneas abriu, descobriu uma novidade: era “Dia do Amigo”.
Aqui cabe um parêntesis. Mario era da velha escola, do tempo em que amigo era coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito e aquela coisa toda. Sem viadagem ou pieguice, claro. Mas era assumidamente da época em que quantidade não era – definitivamente – sinônimo de qualidade e que, justamente por isso, amigo se contava nos dedos. Não em followers.
Mas agora os tempos são outros. Agora todo mundo coleciona amigos virtuais. E em vez de combinar um chope, se combina um chat.
Menos Mario, que nunca trocaria o delicioso e espumante gostinho do mundo real por nada. Até porquê, sempre soube que nada substitui uma verdadeira mesa de bar, uma verdadeira roda de amigos e uma verdadeira conversa regada à muita cerveja gelada e uma porçãozinha rotativa – de calabresa ou de fritas.
De volta à data comemorativa, estava inconformado com a novidade. Dia do Amigo? Como assim? Não que fosse completamente ruim. Sabia de gente que namorava, se insinuava e até fazia sexo online. Cada um na sua, a lei é ser feliz. Era o clique fazendo as vezes de metrô lotado e aproximando as pessoas. Mas daí a transformar o dia do amigo em uma data já era demais. Amigo não tem dia nem hora.
Mas Mario sabia que grande parte das pessoas só se lembrava do aniversário dos amigos das redes sociais, ou avaliava o grau de amizade pela quantidade de seguidores no Twitter. Talvez por isso, criar um dia no ano pra celebrar essa amizade fosse mesmo algo prático para a maioria dos amigos virtuais. Pois assim é só mandar um “feliz dia do amigo” via Messenger ou scrap e pronto: contato, só no ano que vem de novo.
Então parou de se questionar e aceitou a realidade. Mas agora, completamente sem culpa. Pois como diria um grande amigo seu, desses que são reais e tão poucos que se contam nos dedos: “Amigo que é amigo não tem dia, tem existência”
E como quem tem dia, tem prazo de validade, ficou tranquilo. Sempre preferiu os amigos que duram para sempre. Então voltou ao trabalho apenas com um ponto a resolver: que horas encontraria os amigos para um chopinho.
Sono pesado
Quando o médico finalmente conseguiu segurar aquela grande cabeça tomou um susto: o bebê não chorava. Mas também não estava morto, nasceu dormindo. E passaria a vida inteira assim, “descansando os olhos” como diriam anos depois.
Dormia o tempo todo – ou pelo menos todo o tempo em que não estivesse acordado, fazendo isso com a precisão e a habilidade de um profissional. Afinal, não era um mero “bom de cama” como podiam insinuar eventuais desinformados. Dormia no aconchego do seu colchão de molas encapadas e semi ortopédico, daquela marca conhecida, com a mesma destreza que caia no sono em circunstâncias, terrenos e condições das mais diversas. Com ele não tinha cerimônia.
Pela manhã, assim que acordava logo dormia de novo. No banho, no caso. E não se limitava a um cochilo enquanto lavava o cabelo. Dormia do começo ao fim, mas não sem se lavar direito. Conseguia dormir e tomar banho com a mesma facilidade com que aquele presidente ex-operário conseguia falar sério dizendo apenas bobagem.
E quando pintava uma necessidade mais específica, não era diferente. Dava seu cochilinho sentado no vaso sanitário ou em pé diante dele, reforçando sempre para quem duvidasse, que sabia o que estava fazendo. E de olhos fechados! – exclamava. Só abria antes da derradeira descarga, pois tinha por hábito conferir sua obra e estimar seu peso. De resto, também não errava o buraco do vaso, muito pelo contrario. Chegava até ao requinte de fechar a tampa quando terminava. Era um dorminhoco afinal. Mas um educado acima de tudo.
Levava uma vida normal, apesar do hábito peculiar. Na rua, por exemplo, não passava vontade. E se alguém o acusasse de “dormir no ponto”, tinha como resposta um orgulhoso “sim”. Mas sempre acordava a tempo de nunca perder o bonde. No caso, o ônibus. E tão logo estivesse dentro dele, tratava logo de arrumar um lugar pra se aninhar e viver uma deliciosa experiência de sono durante a viagem.
Por conta disso, muitos imaginavam que teria problemas quando o assunto era relacionamento. Ou o que acontece durante um. Ao que estavam enganados. Apesar de ter sido surpreendido várias vezes por uma súbita sonolência ainda nas preliminares, nessa hora e durante todo o tempo que a atividade durasse, não dormia. Pelo contrário. Estava sempre ligado, em riste por assim dizer. Apenas, como qualquer macho da espécie que se preze, não resistia a um bom cochilo depois de tanto tempo de cabeça quente.
Dormia no carro, na cama, fora dela e também no ponto, era mesmo bom nisso. Até que um dia dormiu na linha. Do trem, no caso. Era hora do “rush” como se diz por aí, a plataforma estava cheia. E depois de um dia de trabalho o sono chegou antes do trem. Quando viu, não viu mais nada. Passou de passageiro a “objeto na via” num piscar de olhos. Aliás, num descansar os olhos que, sem querer, acabou descansando todo o resto.
Dormindo com o inimigo
Naquela noite prometeu a si mesmo que dividiria um pouco de sua vida e, possivelmente, uma quantidade razoável de DNA com alguém. Tinha um encontro, afinal. Uma nova garota que conheceu no Orkut. Amiga do amigo da amiga de uma garota onde já esteve perdendo algumas horas há tempos atrás, mas que não é da sua conta nem da minha.
O fato é que estava animado. O papo virtual rolou fácil e com qualidade de ambas as partes, o que, depois de algumas preliminares, poderia finalmente chegar aos finalmentes.
Então marcou com ela num barzinho da Augusta. A rua, no caso. E fez questão de chegar no horário, ou seja, uns trinta e tantos minutos depois do combinado. Ela já estava lá: linda, maquiada, elegantemente vestida até onde os olhos podiam ver e – acreditava ele – sem nada onde só seus pensamentos podiam chegar.
Desde o começo o papo rolou fácil. E o fluxo de cervejas que insistia em aparecer sobre a mesa só tornava o cenário ainda mais favorável: ambos de comunicação, gosto musical compatível, tatuagens, bandas alternativas no iPod e o melhor: ela tocava teclado.
Assim que descobriu a agradável coincidência sentiu a “deixa” para arriscar aquele ótimo trocadilho-convite, afinal, ele tinha um orgão. Um genuíno Gambitt 1977 que, diziam, era “dos bons”. Então acreditou. Fez o convite de bate-pronto e ela aceitou no mesmo lance. Foram então para o apartamento dele, onde ela tocaria o tal orgão... também.
Chegaram rápido, estavam próximos. Apartamento honesto, bem localizado, arejado, varanda que dava para a rua e visitas que davam na varanda, ou seja: perfeito. Logo esqueceram o teclado e partiram para instrumentos de sonoridade mais intimista, mais adequados à ocasião. Quando viram, já estavam na cama. Que por sinal, também era “das boas”.
Algum tempo depois sentiu então o cheiro do sucesso no ar. Teve certeza disso quando conferiu aquele corpo feminino de bruços, ostentando um sorriso satisfeito enquanto dormia feito um anjo. Respirou fundo apreciando a brisa, admirou a cena uma última vez e fechou os olhos. Tinha uma mão na nuca, enquanto a outra confirmava que aquele bumbum já apanhara o suficiente naquela noite. Era hora de descansar. Então se permitiu, finalmente, o sono dos justos.
Quando o telefone tocou pela terceira vez já eram sete da manhã. Horário em que qualquer ser humano temente a Deus e que ama a própria mãe não liga para outro. Mas era a mãe dela. E nesse caso cabe uma excessão à regra. Queria saber onde a filha havia dormido, com quem, essas coisas. E naquela altura, a filha também queria.
Disse então umas poucas palavras desconexas à mãe e desligou. Se sentiu estranha. Acordou numa cama que não era a sua, num quarto que não era o seu, lembrava pouco sobre a noite. Então foi direto ao banheiro, onde se deparou com um rosto borrado no espelho e por um momento pensou que fosse o Alice Cooper. Mas definitivamente não era, saiu com água.
Recomposta e segura de si, decidiu que ia embora. Ele ainda dormia, mas levantou para mandar um beijo e fechar a porta. Era um cavalheiro, afinal. Na volta iria dormir mais cinco minutinhos, mas não antes de fazer uma escala. Passou pelo banheiro para se livrar dos excessos da noite e daquela ereção matinal. Então percebeu que, sem querer, se livrara também de mais alguma coisa: seu iPod.
Estava completamente em pânico, afinal sabia que o deixara sobre a pia. Se sentiu lesado. Então, ligou para ela antes mesmo de lavar as mãos. Nunca tinha ligado para uma mulher no dia seguinte, muito menos tão cedo. Muito menos com a mão suja. Mas era preciso. E valeu a pena, pois ela voltou e devolveu o brinquedo que, segundo sua teoria, mesmo com uma superfície completamente lisa, havia “enroscado” em sua roupa.
Desfeito o mal entendido, se despediu com um sorriso amarelo e sem escovação dada a oportunidade. Foi a última vez que a viu. Assim como não viu nunca mais os únicos trocados que tinha na carteira naquela manhã e que, descobriria a seguir, também pegaram carona no “enrosco” do iPod.
Então foi trabalhar sem um puto. E na cabeça, pensava em usar o velho golpe da carteira esquecida em casa para poder almoçar. Afinal, naquela noite a janta custou o almoço.
Antes tarde do que nunca
Nunca teve o hábito de chegar no horário. E não era por maldade, desleixo ou descaso com os compromissos ou compromissados. Não mesmo. Apenas já tinha desistido de tentar. Pois mesmo quando tudo parecia certo e finalmente chegaria antes, ou na hora, algo ou alguém conspirava contra e tudo saía errado.
Já perdera viagens, casamentos, a própria festa e a paciência. Seus amigos, claro, também. Afinal, era um atrasado nato.
Todos tinham certeza de que ele perderia o próprio casamento, caso se desse a esse desfrute um dia. Enquanto ele, tinha certeza de que só chegaria no horário em seu próprio velório. Mas ainda assim, certamente se atrasaria para o enterro. Afinal, se o destino já o ajudara a se atrasar a vida toda, na sua última hora seria legal que chegasse também um pouco depois.
Mas naquele dia algo saiu errado. Ou certo. Chegou cedo ao consultório do médico. Confiava naquele profissional que passa anos se dividindo entre faculdade, residência, plantões e os seios das estagiárias. E que, provavelmente por isso, aprende muitas lições, mas esquece o jeito de passá-las para o papel. Pelo menos de forma legível.
Estava disposto a mudar, melhorar. E o primeiro passo foi justamente procurar aquele médico, aquela especialidade. O segundo, seguido do terceiro, quarto e de todos os próximos e apressados passos, foram dados rumo ao consultório, onde chegou com dez minutos de antecedência.
Tempo suficiente para relaxar, analisar a recepcionista, folhear aquela Caras velha cheia de velhas caras. E claro, tempo para conferir o que era tendência no verão de três ou quatro temporadas atrás no sebo de revistas sobre a mesinha de centro. Enfim, estar ali tão cedo já era um recorde. Sentiu um cheiro de mudança no ar, mas foi logo interrompido pelo cheiro de mofo do consultório.
Tudo caminhava de acordo com aquilo que os mais pontuais chamam de “o combinado”. E mesmo passados quarenta minutos da sua chegada, sendo meia hora só era de atraso do médico, ele ainda se mantinha paciente por se sentir no que pensava ser o prazo de tolerância.
Mas começou a ficar agoniado. A visão da recepcionista a essa altura era ainda mais desagradável do que o choque inicial. Então teve uma dúvida da qual, certamente, todo mundo ali compartilhava, só não tinha coragem de se manifestar para não soar deselegante ou causar uma gargalhada coletiva, ou seja: “como raios essa criatura consegue se levantar da mesa?”
Não precisou de muito tempo para encontrar a resposta. Num golpe de agilidade digno dos seres mais leves, aquela estrutura avantajada e saliente se ergueu como que por mágica. E mesmo com alguma dificuldade visível, mas eficiência invejável, passou rebolando pela mesa e ainda jogou um charme para quem quisesse ver. No caso, ninguém. Era um milagre, tinha certeza disso.
Recuperado do susto de presenciar a ação de Deus diante dos seus olhos, aproveitou para conferir novamente o relógio. O que já tinha feito uma centena de vezes na última meia hora e vinte minutos. E a surpresa foi tão grande quanto ver a montanha não apenas levantar, mas ir a Maomé diante de seus olhos incrédulos. Já se passara quase uma hora desde o horário marcado e nada. Simplesmente não chamavam seu nome. Ao contrário. Dona Isso, Senhorita Aquilo, Seu Coisa Alguma, mas seu nome nada.
Então um filme passou pela sua cabeça. E ele assistiu sem resistir. Estava ali sem nada melhor para fazer, não é mesmo? Estava de bobeira há pelo menos uma hora, as revistas já eram velhas há pelo menos um ano, a recepcionista parecia ter engolido as duas antecessoras, o que mais podia dar errado? Então ficou atento à película imaginária. E lembrou de todas as vezes que se atrasou. Aproveitou para lembrar daquele atraso que salvou sua vida e pensou que este talvez fosse igual.
E seguiu vendo o filme, que entre uma cena e outra, fazia uma pausa para mostrar o ensaio sensual de alguma ilustre desconhecida cheia de curvas e quase nenhuma roupa. Até que a porta se abriu e ouviu seu nome.
Quase não acreditou, mas se despediu das garotas imaginárias e apertou o pause no filme para, mais de uma hora de espera depois, entrar de uma vez na sala. Tinha muito a dizer ao médico, inclusive desaforos. E não exitaria em colocar a família alheia na discussão. Não desta vez. Estava cheio de dúvidas e precisava desabafar.
Mas depois da espera, do filme da sua vida e das garotas, sentiu que nada era mais importante do que esclarecer uma única dúvida naquele momento. Então olhou sério para o médico, respirou fundo, e depois do murro na mesa disparou: “por que raios alguém precisa marcar consulta com um mês de antecedência e chegar antes do horário, se nunca vai ser atendido nele?”
E saiu da sala sem esperar uma resposta, deixando incrédulos o médico e cada metro cúbico de sua farta recepcionista. Sabia que levaria de volta consigo todas as suas dúvidas. Mas levaria também duas certezas: nunca mais sentiria remorso por chegar atrasado, e claro, bateria a porta do consultório com força assim que passasse por ela.