Nem toda história tem moral
Luzia e Luana sempre foram muito unidas. E não era apenas na chamada da escola, sempre foram grandes amigas mesmo. Do peito!, já diziam delas quando ainda nem tinham peito pra tanta amizade.
A primeira, com nome de santa e postura também, sempre foi recatada, tímida, religiosa. Passou a infância ajudando o padre da paróquia local em total segurança. Até porque, anos depois ficaria claro que ao contrário das mulheres, que preferem os coroas, os padres preferem os coroinhas. Na adolescência Luzia estudou em colégio de freiras e aos 21, idade tida na época como ideal para a união das escovas, casou-se virgem, apaixonada e sóbria. Ao contrário do marido, claro.
Já Luana, bem, com este nome só podia dar para atriz ou coisa pior, até porque, desde cedo sempre foi aquilo que “a gente de dona Dulce”, uma vizinha que sempre sabia de tudo – e da vida de todos - chamava de “dada”. Espoleta e curiosa, Luana começou a namorar quando as amiguinhas ou não o faziam ou ainda brincavam de médico com os primos. E não parou mais. Quando não estava namorando, ficava. Quando não ficava, ficavam com ela. Fato que tornou sua intimidade, desde muito cedo, íntima de todos. Um escândalo para a época.
Mas nem a diferença de postura pôde separar as duas, que nunca deixaram de ser amigas. E mesmo depois de muito tempo afastadas pelos rumos que a vida, ou as oportunidades, impuseram a ambas, um belo dia se reencontraram.
Luzia continuava a mesma. Honrada, fiel, do lar. Só tinha olhos e atenção para o marido, para os filhos e para seu único vício: um curso vespertino de Mandarim, do qual não abria mão. Era uma santa, como já diziam as vizinhas e seu nome. Não tinha boca pra nada, reforçavam. Até a sogra gostava da nora e não cansava de dizer que para ela “era a filha que nunca teve”.
Já Luana, que era Lulu tanto para os íntimos quanto para os ocasionais, se perdera na vida. Caíra com uma mão na frente e outra atrás em caminhos tortuosos, tirando uma das mãos, e às vezes as duas, apenas para se entregar à luxúria, ao prazer, à vida dupla, tripla e despudorada. Uma lasciva em busca constante pelo puro creme da libidinagem e da perversão.
E foi com o peso dessa experiência que Lulu buscou o ombro da amiga naquela tarde. Pois, arrependida da vida que levara até ali, acreditava cegamente que abrindo seu coração dilacerado pela vida pagã à amiga que sempre a ouviu, e a quem sempre admirou, teria o perdão e a paz. Afinal, para Luana era Deus no céu e Luzia na terra. E como o céu é para os pássaros e para aqueles que conseguem embarcar durante o apagão aéreo, melhor mesmo era aproveitar a santidade da amiga que estava logo ali. E foi o que fez.
Luzia recebeu carinhosamente a amiga na paz de seu lar e antes que a Luana dissesse a que veio, se viu envolvida em um longo e materno abraço. Ao que teve a certeza: é mesmo uma santa!
Já recomposta da emoção, Luzia, sempre serena como são todas as mulheres de Deus, ofereceu um café e aproveitou para dar as típicas boas-vindas dos lares verdadeiramente humildes: “Fique à vontade. É um lar pobre, mas asseado.”
Luana, que já se desmanchava em lágrimas antes mesmo de começar a falar, ao ser tocada pela mão encorajadora da amiga, ouviu: “Não chore. Conte-me o que te aflige, aqui você tem um colo.” - como se ela também não tivesse vários fora dali... Então Luana engoliu o choro e conseguiu iniciar seu relato. A confissão que, acreditava, salvaria sua alma.
- Amiga, o que você diria de mim se soubesse que saí com muitos homens? – perguntou Luana enquanto secava as lágrimas e observava atenta a expressão da amiga.
- Diria que você é uma mulher muito ativa - respondeu.
Luana quase desabou novamente, mas concluiu que deveria ter falado antes com a amiga, estaria salva a mais tempo. Resolveu continuar:
- Mas foram muitos homens. Muitos...
- Entendo. Realmente você é uma mulher muito ativa. Muito...
- É só isso que você pensa?
- É só isso que eu penso. Acredite.
Luana não entendia de onde vinha tanta compreensão, piedade e porque não dizer, amor. Respirou fundo e decidiu que falaria tudo. Estava confiante, a amiga a entendera, era uma santa afinal.
Luzia havia tido uma vida comportada como manda o figurino, mas ainda assim, mesmo cercada do peso da moral e dos bons costumes, via a amiga com bons olhos. Os olhos de Deus, alguém poderia dizer. Não a julgava mesmo depois de tanto tempo afastadas e da fama que a seguia há tempos. Era um milagre, pensou Luana, um milagre! Decidiu seguir em frente.
- E o que você diria se soubesse que eu recebia para sair com esses homens? Que eles pagavam para me ter? - cacófato?
Luzia não moveu um músculo sequer. Apenas olhou nos olhos da amiga, respirou e respondeu:
- Você é bonita, estava prestando um bom serviço. Merecia algum reconhecimento.
Luana engoliu a seco a resposta. Que Frei Galvão que nada! Era Luzia quem o Papa Bento XVI deveria canonizar, estava realmente certa disso. Chegou a pensar que visitaria o pároco local para falar sobre o assunto. Era isso! Iria logo depois de falar com a amiga. Ele que a aguardasse. E prosseguiu bem mais à vontade:
- Sabe amiga, eu fazia programas. Deitava com homens de todos os tipos, cores e credos. Ai, credo! Fazia isso por dinheiro! Por dinheiro! – repete desesperada. Sou uma pecadora, uma mundana, uma mulher da vida – conclui.
- Calma Lú, fique calma – tranqüiliza Luzia carinhosa.
- Você não entende! – grita. Eu me vendi aos prazeres e à luxúria, agora estou envergonhada! Perdida! No fundo (humpf), sempre quis ter a vida que você teve. Ser como você. Sempre quis ter uma casa, um marido, filhos e até fazer um curso de Mandarim à tarde, sim, por que não? – confessa tentando tirar um corpo estranho da borda do nariz.
- Eu te entendo, Lú. No duro, entendo – conforta Luzia enquanto a amiga se explica.
- Desde que aceitei trabalhar à noite naquela boate famosa lá do centro, aquela com frente de castelinho, fiz tudo que você possa imaginar. Tudo! Você não acreditaria. – diz aos berros enquanto cai aos prantos sobre os pés de Luzia e se lembra que de hoje não passa: vai sugerir a santificação da amiga ao clero. Ah, vai!
Luzia, que ouvia tudo atenta e imparcial, de súbito se levanta, olha séria para a amiga aos prantos no chão e pergunta de bate-pronto:
- Você disse “boate famosa do centro” com "frente de castelinho"?
- Disse.
- E você disse “à noite”?
- Sim! Isso mesmo – responde Luana, que não entende a curiosidade repentina da amiga, mas tem certeza de que, dependesse dela, em breve a amiga estaria santificada.
- hmmm... Então foi por isso.
- Por isso o quê? Como assim? – pergunta a agora esbugalhada Luana, engolindo mais uma vez o choro.
- Por isso nunca a vi por lá.
E um silêncio estranho tomou conta da sala. Luzia, sempre serena e angelical, sorri para a amiga enquanto aprecia seu café sorvendo-o lentamente. Já Luana, que acabara de descobrir que nem toda história tem moral, se prepara para sair da casa da amiga levando consigo apenas duas certezas: definitivamente não falaria nada com o padre, não mesmo; e, de tudo que sempre quis fazer como a amiga, aulas de “Mandarim” ela certamente não precisaria fazer.
A primeira, com nome de santa e postura também, sempre foi recatada, tímida, religiosa. Passou a infância ajudando o padre da paróquia local em total segurança. Até porque, anos depois ficaria claro que ao contrário das mulheres, que preferem os coroas, os padres preferem os coroinhas. Na adolescência Luzia estudou em colégio de freiras e aos 21, idade tida na época como ideal para a união das escovas, casou-se virgem, apaixonada e sóbria. Ao contrário do marido, claro.
Já Luana, bem, com este nome só podia dar para atriz ou coisa pior, até porque, desde cedo sempre foi aquilo que “a gente de dona Dulce”, uma vizinha que sempre sabia de tudo – e da vida de todos - chamava de “dada”. Espoleta e curiosa, Luana começou a namorar quando as amiguinhas ou não o faziam ou ainda brincavam de médico com os primos. E não parou mais. Quando não estava namorando, ficava. Quando não ficava, ficavam com ela. Fato que tornou sua intimidade, desde muito cedo, íntima de todos. Um escândalo para a época.
Mas nem a diferença de postura pôde separar as duas, que nunca deixaram de ser amigas. E mesmo depois de muito tempo afastadas pelos rumos que a vida, ou as oportunidades, impuseram a ambas, um belo dia se reencontraram.
Luzia continuava a mesma. Honrada, fiel, do lar. Só tinha olhos e atenção para o marido, para os filhos e para seu único vício: um curso vespertino de Mandarim, do qual não abria mão. Era uma santa, como já diziam as vizinhas e seu nome. Não tinha boca pra nada, reforçavam. Até a sogra gostava da nora e não cansava de dizer que para ela “era a filha que nunca teve”.
Já Luana, que era Lulu tanto para os íntimos quanto para os ocasionais, se perdera na vida. Caíra com uma mão na frente e outra atrás em caminhos tortuosos, tirando uma das mãos, e às vezes as duas, apenas para se entregar à luxúria, ao prazer, à vida dupla, tripla e despudorada. Uma lasciva em busca constante pelo puro creme da libidinagem e da perversão.
E foi com o peso dessa experiência que Lulu buscou o ombro da amiga naquela tarde. Pois, arrependida da vida que levara até ali, acreditava cegamente que abrindo seu coração dilacerado pela vida pagã à amiga que sempre a ouviu, e a quem sempre admirou, teria o perdão e a paz. Afinal, para Luana era Deus no céu e Luzia na terra. E como o céu é para os pássaros e para aqueles que conseguem embarcar durante o apagão aéreo, melhor mesmo era aproveitar a santidade da amiga que estava logo ali. E foi o que fez.
Luzia recebeu carinhosamente a amiga na paz de seu lar e antes que a Luana dissesse a que veio, se viu envolvida em um longo e materno abraço. Ao que teve a certeza: é mesmo uma santa!
Já recomposta da emoção, Luzia, sempre serena como são todas as mulheres de Deus, ofereceu um café e aproveitou para dar as típicas boas-vindas dos lares verdadeiramente humildes: “Fique à vontade. É um lar pobre, mas asseado.”
Luana, que já se desmanchava em lágrimas antes mesmo de começar a falar, ao ser tocada pela mão encorajadora da amiga, ouviu: “Não chore. Conte-me o que te aflige, aqui você tem um colo.” - como se ela também não tivesse vários fora dali... Então Luana engoliu o choro e conseguiu iniciar seu relato. A confissão que, acreditava, salvaria sua alma.
- Amiga, o que você diria de mim se soubesse que saí com muitos homens? – perguntou Luana enquanto secava as lágrimas e observava atenta a expressão da amiga.
- Diria que você é uma mulher muito ativa - respondeu.
Luana quase desabou novamente, mas concluiu que deveria ter falado antes com a amiga, estaria salva a mais tempo. Resolveu continuar:
- Mas foram muitos homens. Muitos...
- Entendo. Realmente você é uma mulher muito ativa. Muito...
- É só isso que você pensa?
- É só isso que eu penso. Acredite.
Luana não entendia de onde vinha tanta compreensão, piedade e porque não dizer, amor. Respirou fundo e decidiu que falaria tudo. Estava confiante, a amiga a entendera, era uma santa afinal.
Luzia havia tido uma vida comportada como manda o figurino, mas ainda assim, mesmo cercada do peso da moral e dos bons costumes, via a amiga com bons olhos. Os olhos de Deus, alguém poderia dizer. Não a julgava mesmo depois de tanto tempo afastadas e da fama que a seguia há tempos. Era um milagre, pensou Luana, um milagre! Decidiu seguir em frente.
- E o que você diria se soubesse que eu recebia para sair com esses homens? Que eles pagavam para me ter? - cacófato?
Luzia não moveu um músculo sequer. Apenas olhou nos olhos da amiga, respirou e respondeu:
- Você é bonita, estava prestando um bom serviço. Merecia algum reconhecimento.
Luana engoliu a seco a resposta. Que Frei Galvão que nada! Era Luzia quem o Papa Bento XVI deveria canonizar, estava realmente certa disso. Chegou a pensar que visitaria o pároco local para falar sobre o assunto. Era isso! Iria logo depois de falar com a amiga. Ele que a aguardasse. E prosseguiu bem mais à vontade:
- Sabe amiga, eu fazia programas. Deitava com homens de todos os tipos, cores e credos. Ai, credo! Fazia isso por dinheiro! Por dinheiro! – repete desesperada. Sou uma pecadora, uma mundana, uma mulher da vida – conclui.
- Calma Lú, fique calma – tranqüiliza Luzia carinhosa.
- Você não entende! – grita. Eu me vendi aos prazeres e à luxúria, agora estou envergonhada! Perdida! No fundo (humpf), sempre quis ter a vida que você teve. Ser como você. Sempre quis ter uma casa, um marido, filhos e até fazer um curso de Mandarim à tarde, sim, por que não? – confessa tentando tirar um corpo estranho da borda do nariz.
- Eu te entendo, Lú. No duro, entendo – conforta Luzia enquanto a amiga se explica.
- Desde que aceitei trabalhar à noite naquela boate famosa lá do centro, aquela com frente de castelinho, fiz tudo que você possa imaginar. Tudo! Você não acreditaria. – diz aos berros enquanto cai aos prantos sobre os pés de Luzia e se lembra que de hoje não passa: vai sugerir a santificação da amiga ao clero. Ah, vai!
Luzia, que ouvia tudo atenta e imparcial, de súbito se levanta, olha séria para a amiga aos prantos no chão e pergunta de bate-pronto:
- Você disse “boate famosa do centro” com "frente de castelinho"?
- Disse.
- E você disse “à noite”?
- Sim! Isso mesmo – responde Luana, que não entende a curiosidade repentina da amiga, mas tem certeza de que, dependesse dela, em breve a amiga estaria santificada.
- hmmm... Então foi por isso.
- Por isso o quê? Como assim? – pergunta a agora esbugalhada Luana, engolindo mais uma vez o choro.
- Por isso nunca a vi por lá.
E um silêncio estranho tomou conta da sala. Luzia, sempre serena e angelical, sorri para a amiga enquanto aprecia seu café sorvendo-o lentamente. Já Luana, que acabara de descobrir que nem toda história tem moral, se prepara para sair da casa da amiga levando consigo apenas duas certezas: definitivamente não falaria nada com o padre, não mesmo; e, de tudo que sempre quis fazer como a amiga, aulas de “Mandarim” ela certamente não precisaria fazer.

4 Comentários:
O texto tem qualidade. Fiquei na dúvida se eu prefiriria conhecer a Luzia ou a Lulu.
De qualquer forma, não se esqueça de me convidar pro lançamento do livro.
hahahaha, na verdade eu também fiquei na dúvida. acho que no fim das contas, talvez o melhor mesmo seja conhecer as duas. juntas.
;-)
pode deixar que vc já está convidado, só vou dizer a data e hora, hehehe
;-))
nossa...
muita coisa mudou não é mesmo?
É... e toda mulher tem um pouco das duas. Ou ao menos deveriam ter...
bjo.
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