Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Mais duas, a conta e uma loira pra viagem

15h, to no horário
Chego ao aeroporto de Recife no horário, o vôo também. Desta vez parece que chegarei ao destino com as bagagens. Já tinha até esquecido como era. Há apenas duas semanas anteciparam a decolagem com minha bagagem embarcada. Resultado: eu em Recife, com apenas uma cueca.

Após fazer o check-in, recebo um formulário para informar os dados de alguém que deve ser avisado em caso de emergência. Que tipo de emergência? - penso. Mesmo assim, anoto o contato e peço que avisem com jeito, minha mãe é hipertensa e tal.

Assustada, a atendente avisa que é apenas rotina, que vai dar tudo certo. Como pode dar tudo certo? - digo a ela. Se cair, caiu! Sem chance - completo. Enquanto isso uma senhora começa a suar na fila. Meio assustada, a atendente apenas abre um sorriso amarelo e se despede. Aproveito e vou tomar uma cerveja até a hora do embarque.

16:10h, hora do vôo
Finalmente o avião decola. Enquanto ainda subíamos, um barulho estranho interrompe minha leitura. Ninguém nota. Mas várias horas de vôo me diferem dos turistas sazonais e logo percebo que algo aconteceu. Fico alerta.

Uma comissária passa rápido rumo à cabine. Em seguida outra. Mas tenho certeza de que a visita não tem nada a ver com aquela piada em que o comandante deixa o microfone aberto, dá uma espreguiçada e diz que tudo que queria naquele momento era um café e depois um favor oral. Até porque, se fosse isso não precisaria de duas comissárias... neste ponto fico em dúvida, mas volto ao tema e concluo que realmente tem algo errado. E não é o sexo oral a três.

O avião continua subindo, o comandante avisa que um problema no trem de pouso dianteiro nos levará de volta à Recife. A confusão está armada.

Desespero, pânico, crianças e mulheres chorando e homens procurando um garçom. Eu, naturalmente, sou um deles. Surge a história real: “sim”, nosso avião tem um problema grave e “sim” pode se espatifar na aterrissagem. Concluo que deveria ter pedido mais duas e a conta antes do embarque. Não é justo, lamento.

17h, o tumulto continua
Pessoas mudam de lugar para reunir as famílias, são seus últimos momentos afinal. Pessoas rezam pedindo desculpas para o vizinho. Outros pedem bebida alcoólica, eu também. Afinal, ninguém quer que a última hora do gole seja pessoalmente com o Santo e tal. Mas a lei seca muda nossos planos.

Como se isso não bastasse, não vejo nenhuma loira interessante no avião para me fazer companhia e amenizar a dor em meus últimos momentos. Triste fim, penso.

17:40h, muito combustível para queimar
A única chance de diminuir o risco de explosão durante a aterrissagem é voar algum tempo para queimar combustível. Isso diminui o peso da aeronave e o combustível nas asas. Assim, já que voaremos em círculos por mais um tempo, resolvo dormir. Não vai mudar nada ficar acordado ouvindo as lamentações, principalmente porque o álcool foi cortado, concluo.

18:30h, chega o grande momento
Mais de duas horas voando sobre Recife e finalmente chega a hora. A calma aparente é substituída pelo pânico inicial e o comandante avisa que iremos aterrissar.

Todos já sabem que há risco de explosão. As asas podem tocar o chão e espalhar combustível e turistas pela pista. Além disso, neste caso seria preciso evacuar o avião com ele pegando fogo. Então tento imaginar uma picanha fugindo sozinha da churrasqueira em brasa, mas isso só piora as coisas.

Chega a hora do tudo ou nada. Com as duas cabeças entre as pernas e a mão na nuca, aguardo o impacto e o pior. Mas o que é "o pior" a uma altura dessas? Chego a achar que beber a próxima com o Santo já é uma boa.

Para o casal vizinho de poltrona, em plena lua-de-mel, só desejo que já tenham feito a prévia antes de casar. Terminar sem sentir o gosto do pecado é sacanagem. E pelo jeito como eles rezam fico até comovido.

Cobertura do Fantástico, alerta geral e fim do suspense
O alerta foi dado. Repórteres mandando flashes ao vivo para suas redações. Bombeiros espalhados, espuma na pista, ambulâncias, a torcida do Sport Recife comovida, enfim, tudo pronto para rodar o filme. E desta vez, nós passageiros somos os protagonistas.

Dentro do avião pânico instituído e generalizado. Então o avião toca o chão. Um grande impacto dá lugar a muito barulho e gritaria. A seguir, alguns segundos de silêncio mórbido e ouve-se palmas para o piloto: aparentemente todos vivos, ou bem recebidos no céu.

Levanto uma das cabeças e, já com ambas em seus devidos lugares, noto que realmente o pânico acabou. Estamos a salvo. Pessoas se abraçam felizes enquanto o casal ao meu lado agradece desesperadamente a Deus a segunda chance. Lindo.

Quando saio calmamente do avião procuro evitar as reportagens. Essa gente da imprensa distorce tudo. O que quero mesmo é resolver duas coisas imediatas: uma, correr até o bar do aeroporto e pedir duas loiras geladas. Serão por conta da companhia aérea e coisa e tal. A outra, e não menos importante, é achar uma loira quente e farta antes da próxima decolagem. Afinal, nunca se sabe quando o próximo vôo será o último.

Atendendo a milhares de pedidos, um dos meus textos mais antigos. Mas nunca tão atual.

Esta história é baseada em fatos reais. Portanto, qualquer semelhança com fatos, pessoas, lugares ou situações pode não ser mera coincidência.

2 Comentários:

Blogger Ciane Soares disse...

Teria sido o ínicio do caos aéreo? rs
Lembro desse texto...gosto dele
:)

28 de Outubro de 2008 10:46  
Blogger Ronas disse...

Mano,

Teve umas horas que eu rachei o bico.

Não consigo imaginar que um momento de tamanha tensão pode ser também divertido.

FUDIDO

Parabéns.

29 de Outubro de 2008 10:02  

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