Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

Antes tarde do que nunca

Nunca teve o hábito de chegar no horário. E não era por maldade, desleixo ou descaso com os compromissos ou compromissados. Não mesmo. Apenas já tinha desistido de tentar. Pois mesmo quando tudo parecia certo e finalmente chegaria antes, ou na hora, algo ou alguém conspirava contra e tudo saía errado.

Já perdera viagens, casamentos, a própria festa e a paciência. Seus amigos, claro, também. Afinal, era um atrasado nato.

Todos tinham certeza de que ele perderia o próprio casamento, caso se desse a esse desfrute um dia. Enquanto ele, tinha certeza de que só chegaria no horário em seu próprio velório. Mas ainda assim, certamente se atrasaria para o enterro. Afinal, se o destino já o ajudara a se atrasar a vida toda, na sua última hora seria legal que chegasse também um pouco depois.

Mas naquele dia algo saiu errado. Ou certo. Chegou cedo ao consultório do médico. Confiava naquele profissional que passa anos se dividindo entre faculdade, residência, plantões e os seios das estagiárias. E que, provavelmente por isso, aprende muitas lições, mas esquece o jeito de passá-las para o papel. Pelo menos de forma legível.

Estava disposto a mudar, melhorar. E o primeiro passo foi justamente procurar aquele médico, aquela especialidade. O segundo, seguido do terceiro, quarto e de todos os próximos e apressados passos, foram dados rumo ao consultório, onde chegou com dez minutos de antecedência.

Tempo suficiente para relaxar, analisar a recepcionista, folhear aquela Caras velha cheia de velhas caras. E claro, tempo para conferir o que era tendência no verão de três ou quatro temporadas atrás no sebo de revistas sobre a mesinha de centro. Enfim, estar ali tão cedo já era um recorde. Sentiu um cheiro de mudança no ar, mas foi logo interrompido pelo cheiro de mofo do consultório.


Tudo caminhava de acordo com aquilo que os mais pontuais chamam de “o combinado”. E mesmo passados quarenta minutos da sua chegada, sendo meia hora só era de atraso do médico, ele ainda se mantinha paciente por se sentir no que pensava ser o prazo de tolerância.

Mas começou a ficar agoniado. A visão da recepcionista a essa altura era ainda mais desagradável do que o choque inicial. Então teve uma dúvida da qual, certamente, todo mundo ali compartilhava, só não tinha coragem de se manifestar para não soar deselegante ou causar uma gargalhada coletiva, ou seja: “como raios essa criatura consegue se levantar da mesa?”

Não precisou de muito tempo para encontrar a resposta. Num golpe de agilidade digno dos seres mais leves, aquela estrutura avantajada e saliente se ergueu como que por mágica. E mesmo com alguma dificuldade visível, mas eficiência invejável, passou rebolando pela mesa e ainda jogou um charme para quem quisesse ver. No caso, ninguém. Era um milagre, tinha certeza disso.

Recuperado do susto de presenciar a ação de Deus diante dos seus olhos, aproveitou para conferir novamente o relógio. O que já tinha feito uma centena de vezes na última meia hora e vinte minutos. E a surpresa foi tão grande quanto ver a montanha não apenas levantar, mas ir a Maomé diante de seus olhos incrédulos. Já se passara quase uma hora desde o horário marcado e nada. Simplesmente não chamavam seu nome. Ao contrário. Dona Isso, Senhorita Aquilo, Seu Coisa Alguma, mas seu nome nada.

Então um filme passou pela sua cabeça. E ele assistiu sem resistir. Estava ali sem nada melhor para fazer, não é mesmo? Estava de bobeira há pelo menos uma hora, as revistas já eram velhas há pelo menos um ano, a recepcionista parecia ter engolido as duas antecessoras, o que mais podia dar errado? Então ficou atento à película imaginária. E lembrou de todas as vezes que se atrasou. Aproveitou para lembrar daquele atraso que salvou sua vida e pensou que este talvez fosse igual.

E seguiu vendo o filme, que entre uma cena e outra, fazia uma pausa para mostrar o ensaio sensual de alguma ilustre desconhecida cheia de curvas e quase nenhuma roupa. Até que a porta se abriu e ouviu seu nome.

Quase não acreditou, mas se despediu das garotas imaginárias e apertou o pause no filme para, mais de uma hora de espera depois, entrar de uma vez na sala. Tinha muito a dizer ao médico, inclusive desaforos. E não exitaria em colocar a família alheia na discussão. Não desta vez. Estava cheio de dúvidas e precisava desabafar.

Mas depois da espera, do filme da sua vida e das garotas, sentiu que nada era mais importante do que esclarecer uma única dúvida naquele momento. Então olhou sério para o médico, respirou fundo, e depois do murro na mesa disparou: “por que raios alguém precisa marcar consulta com um mês de antecedência e chegar antes do horário, se nunca vai ser atendido nele?”


E saiu da sala sem esperar uma resposta, deixando incrédulos o médico e cada metro cúbico de sua farta recepcionista. Sabia que levaria de volta consigo todas as suas dúvidas. Mas levaria também duas certezas: nunca mais sentiria remorso por chegar atrasado, e claro, bateria a porta do consultório com força assim que passasse por ela.

1 Comentários:

OpenID Ronas disse...

Caralho.

Fudido esse texto.

Atrasei meus jobs, mas valeu a pena.

21 de Novembro de 2008 14:58  

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