Domingo, 2 de Novembro de 2008

Um bom lugar

Por mais que o simpático Dr. Drauzio Varella passe a vida tentando explicar o sentido dela, nunca vamos entender porque viemos ao mundo. Muito menos, por que passamos tantas dificuldades na vida tentando se encontrar.

Logo no começo, quando ainda não somos nem desejo, somos obrigados a conviver com milhões de irmãos menos espertos que nós: os espermatozóides.

Como sabemos, só não lembramos, a vida nesse momento é um saco e vivemos no maior aperto. É uma fase tensa e qualquer agitação dá inicio a uma disputada e mortal corrida, que começa no testículo do nosso pai e termina com apenas um sobrevivente (eu, você, sua irmã, enfim) no útero da nossa possível futura mãe. Ou não.

É uma viagem difícil. Milhões de espermatozóides irmãos nadam, nadam e morrem na praia. Como os do namorado da Cicarelli. Outros menos providos de sorte acabam descendo pelo ralo, viram hidratante de pele, gel de cabelo, caem no olho, ou são mais ousados e terminam na merda mesmo. É a seleção natural e apenas um consegue chegar ao sonhado destino: o óvulo.

Lá dentro, já acomodado, a estadia é agradável e a vida é uma moleza. Comida, bebida e nada de roupa. Até por que, neste momento ainda nem sabemos que um dia precisaremos disso.

Esta é realmente a primeira melhor fase do homem. Nela não precisamos conviver diretamente com ninguém, só com nossa anfitriã e dona da pensão. E mesmo assim, nem chegamos a vê-la. Na verdade, é ela quem fica o tempo todo tentando nos ver.

A propósito, muitas pessoas que conheceremos ao longo de nossas vidas reclamariam, mas por enquanto nossa mãe não reclama quando chutamos as paredes ou mijamos no meio da casa. Não ainda.

Mas como nada nessa vida é eterno, nem a Dercy Gonçalves, temos nove meses para abandonar nosso primeiro lar, que por sinal, fica cada dia menor. Isso quando não somos despejados antes. De qualquer modo, seja no prazo ou antes dele, somos sempre colocados pra fora à força. E quem resiste, vai a fórceps mesmo.

E tudo isso para que? Para nascer nu, apanhar logo na estréia e ver todo mundo rindo da sua genitália roxa enquanto choramos feito um bebê recém nascido que realmente somos?

Talvez fosse melhor não sair, continuar ali no puxadinho da barriga mesmo. Assim o homem não precisaria passar a vida inteira tentando encontrar seu lugar aqui fora. Até porque, o homem sempre soube onde é este lugar: no útero. Definitivamente, um bom lugar para se estar: quentinho, úmido, aconchegante, e o melhor, dentro de uma mulher.

Não é à toa que depois de nove meses esperando para sair, o homem passa a vida inteira tentando entrar.

1 Comentários:

Anonymous MAU disse...

Bom texto cara...

4 de Novembro de 2008 13:44  

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