Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Dormindo com o inimigo

Naquela noite prometeu a si mesmo que dividiria um pouco de sua vida e, possivelmente, uma quantidade razoável de DNA com alguém. Tinha um encontro, afinal. Uma nova garota que conheceu no Orkut. Amiga do amigo da amiga de uma garota onde já esteve perdendo algumas horas há tempos atrás, mas que não é da sua conta nem da minha.

O fato é que estava animado. O papo virtual rolou fácil e com qualidade de ambas as partes, o que, depois de algumas preliminares, poderia finalmente chegar aos finalmentes.

Então marcou com ela num barzinho da Augusta. A rua, no caso. E fez questão de chegar no horário, ou seja, uns trinta e tantos minutos depois do combinado. Ela já estava lá: linda, maquiada, elegantemente vestida até onde os olhos podiam ver e – acreditava ele – sem nada onde só seus pensamentos podiam chegar.

Desde o começo o papo rolou fácil. E o fluxo de cervejas que insistia em aparecer sobre a mesa só tornava o cenário ainda mais favorável: ambos de comunicação, gosto musical compatível, tatuagens, bandas alternativas no iPod e o melhor: ela tocava teclado.

Assim que descobriu a agradável coincidência sentiu a “deixa” para arriscar aquele ótimo trocadilho-convite, afinal, ele tinha um orgão. Um genuíno Gambitt 1977 que, diziam, era “dos bons”. Então acreditou. Fez o convite de bate-pronto e ela aceitou no mesmo lance. Foram então para o apartamento dele, onde ela tocaria o tal orgão... também.

Chegaram rápido, estavam próximos. Apartamento honesto, bem localizado, arejado, varanda que dava para a rua e visitas que davam na varanda, ou seja: perfeito. Logo esqueceram o teclado e partiram para instrumentos de sonoridade mais intimista, mais adequados à ocasião. Quando viram, já estavam na cama. Que por sinal, também era “das boas”.

Algum tempo depois sentiu então o cheiro do sucesso no ar. Teve certeza disso quando conferiu aquele corpo feminino de bruços, ostentando um sorriso satisfeito enquanto dormia feito um anjo. Respirou fundo apreciando a brisa, admirou a cena uma última vez e fechou os olhos. Tinha uma mão na nuca, enquanto a outra confirmava que aquele bumbum já apanhara o suficiente naquela noite. Era hora de descansar. Então se permitiu, finalmente, o sono dos justos.

Quando o telefone tocou pela terceira vez já eram sete da manhã. Horário em que qualquer ser humano temente a Deus e que ama a própria mãe não liga para outro. Mas era a mãe dela. E nesse caso cabe uma excessão à regra. Queria saber onde a filha havia dormido, com quem, essas coisas. E naquela altura, a filha também queria.

Disse então umas poucas palavras desconexas à mãe e desligou. Se sentiu estranha. Acordou numa cama que não era a sua, num quarto que não era o seu, lembrava pouco sobre a noite. Então foi direto ao banheiro, onde se deparou com um rosto borrado no espelho e por um momento pensou que fosse o Alice Cooper. Mas definitivamente não era, saiu com água.

Recomposta e segura de si, decidiu que ia embora. Ele ainda dormia, mas levantou para mandar um beijo e fechar a porta. Era um cavalheiro, afinal. Na volta iria dormir mais cinco minutinhos, mas não antes de fazer uma escala. Passou pelo banheiro para se livrar dos excessos da noite e daquela ereção matinal. Então percebeu que, sem querer, se livrara também de mais alguma coisa: seu iPod.

Estava completamente em pânico, afinal sabia que o deixara sobre a pia. Se sentiu lesado. Então, ligou para ela antes mesmo de lavar as mãos. Nunca tinha ligado para uma mulher no dia seguinte, muito menos tão cedo. Muito menos com a mão suja. Mas era preciso. E valeu a pena, pois ela voltou e devolveu o brinquedo que, segundo sua teoria, mesmo com uma superfície completamente lisa, havia “enroscado” em sua roupa.

Desfeito o mal entendido, se despediu com um sorriso amarelo e sem escovação dada a oportunidade. Foi a última vez que a viu. Assim como não viu nunca mais os únicos trocados que tinha na carteira naquela manhã e que, descobriria a seguir, também pegaram carona no “enrosco” do iPod.

Então foi trabalhar sem um puto. E na cabeça, pensava em usar o velho golpe da carteira esquecida em casa para poder almoçar. Afinal, naquela noite a janta custou o almoço.

3 Comentários:

Blogger Daniel disse...

Engraçado como nos identificamos com certos contos urbanos cotidianos como se, talvez, fôssemos nós mesmos.


Genial.

27 de Fevereiro de 2009 15:49  
Anonymous Ronas disse...

uhauhauhauhauhauhauha

Sensacional

Não sei se a história contada é melhor que a vivida.

Mas isso só um conhecido poderá responder.

"a janta custou o almoço"

Fudido

Animal

27 de Fevereiro de 2009 16:41  
Blogger priscila garcia disse...

adorei, dud's!
(:

saudades!
beijos.

5 de Março de 2009 14:37  

Postar um comentário

<< Início