Quanto fogo!
Se cruzaram pela primeira vez no cafezinho da firma. Ela não bebia café, mas acompanhava as amigas na pausa que, garantiam, servia para esticar as pernas. Ele, assim como ela, também não era dado ao hábito. Dizia que só tomava de vez em quando, por causa do sono e coisa e tal. Mas passava sempre por ali para conferir se as pernas femininas eram tão boas esticadas quanto tensas sob as mesas do escritório. Sempre uma feliz constatação.
Mas mesmo estando sempre “por ali”, até então, nunca haviam se encontrado. Não até aquela manhã. E assim que se viram se devoraram. Com os olhos, no caso. Quem presenciou garante que mesmo limitados a uma simples troca de olhar, ainda assim, foram muito além do que se pode ver. Pelo menos por cima da roupa.
Era como o que os especialistas em comportamento corporativo e leitores da revista VOCÊ S/A chamam de “atividade suspeita potencial”. Aquilo que o pessoal do happy hour define apenas como “tá rolando” e que Dona Lurdinha do financeiro, solteira, vinte anos de casa, quarenta de vida e quase nenhum de cama, resume como “pouca vergonha da grossa". Seja lá como for, a chama estava acesa. Só cego, por motivos óbvios, não via.
Então começaram a sair. Primeiro com o pessoal da firma, só para almoçar. Depois para confraternizar, tomar um chope, mas tudo sempre dentro dos conformes. Só que na mesa, ninguém duvidava que aquela troca de olhares prometia. Aquilo ia “dar caldo”, comentava-se à boca pequena nas bordas da mesa, enquanto Dona Lurdinha, sempre azeda, acreditava que, no máximo, ia “dar rolo”. E deu.
Um dia, finalmente, marcaram de sair. Mas nada de amigos do trabalho ou qualquer convidado eventual que pudesse causar dispersão. Só os dois. O foco agora era curtir a santa trindade da conquista saindo pra “sei lá, tomar um chope, um banho ou um suco...” – disparou ele ao convidar. Ao que ela topou de imediato.
Ele chegou na hora, ou seja, meia hora depois do combinado. Ela pronta, estava ansiosa e já fumava o terceiro cigarro. Quando a campainha tocou, tratou logo de sair, pulando qualquer formalidade já que não havia muito tempo a perder. Tanto que, assim que conseguiram se desgrudar para ligar o carro, decidiram que pulariam também o chope. Seguiriam direto para o banho, deixando o suco e qualquer repositor liquido para o final, quando, a julgar pelo ritmo, certamente precisariam.
No caminho, enquanto a mão dele descansava no joelho dela, a mão dela se cansava em algo também rígido. Mas que certamente não era o joelho dele. Seguiam direto para um lugar assim assim. Desses discretos, onde só entram casais.
Assim que chegaram, mal podiam esperar para colocar fogo naquele lugar. Então colocaram: assim que mataram sua sede ardente e acabaram dormindo sem apagar aquele cigarrinho pós-ato, deixando este trabalho para os bombeiros.
Apagado o incêndio, não sobrou quase nada. Apenas dois corpos que os bombeiros tiveram que separar com serrote. E durante o velório, caixões lacrados, lado a lado diante de todos como nunca, um comentário era inevitável nas rodinhas de conhecidos e curiosos que se formavam em volta da garrafa térmica de café madrugada adentro: “Esses dois hein? Que fogo...”
Mas mesmo estando sempre “por ali”, até então, nunca haviam se encontrado. Não até aquela manhã. E assim que se viram se devoraram. Com os olhos, no caso. Quem presenciou garante que mesmo limitados a uma simples troca de olhar, ainda assim, foram muito além do que se pode ver. Pelo menos por cima da roupa.
Era como o que os especialistas em comportamento corporativo e leitores da revista VOCÊ S/A chamam de “atividade suspeita potencial”. Aquilo que o pessoal do happy hour define apenas como “tá rolando” e que Dona Lurdinha do financeiro, solteira, vinte anos de casa, quarenta de vida e quase nenhum de cama, resume como “pouca vergonha da grossa". Seja lá como for, a chama estava acesa. Só cego, por motivos óbvios, não via.
Então começaram a sair. Primeiro com o pessoal da firma, só para almoçar. Depois para confraternizar, tomar um chope, mas tudo sempre dentro dos conformes. Só que na mesa, ninguém duvidava que aquela troca de olhares prometia. Aquilo ia “dar caldo”, comentava-se à boca pequena nas bordas da mesa, enquanto Dona Lurdinha, sempre azeda, acreditava que, no máximo, ia “dar rolo”. E deu.
Um dia, finalmente, marcaram de sair. Mas nada de amigos do trabalho ou qualquer convidado eventual que pudesse causar dispersão. Só os dois. O foco agora era curtir a santa trindade da conquista saindo pra “sei lá, tomar um chope, um banho ou um suco...” – disparou ele ao convidar. Ao que ela topou de imediato.
Ele chegou na hora, ou seja, meia hora depois do combinado. Ela pronta, estava ansiosa e já fumava o terceiro cigarro. Quando a campainha tocou, tratou logo de sair, pulando qualquer formalidade já que não havia muito tempo a perder. Tanto que, assim que conseguiram se desgrudar para ligar o carro, decidiram que pulariam também o chope. Seguiriam direto para o banho, deixando o suco e qualquer repositor liquido para o final, quando, a julgar pelo ritmo, certamente precisariam.
No caminho, enquanto a mão dele descansava no joelho dela, a mão dela se cansava em algo também rígido. Mas que certamente não era o joelho dele. Seguiam direto para um lugar assim assim. Desses discretos, onde só entram casais.
Assim que chegaram, mal podiam esperar para colocar fogo naquele lugar. Então colocaram: assim que mataram sua sede ardente e acabaram dormindo sem apagar aquele cigarrinho pós-ato, deixando este trabalho para os bombeiros.
Apagado o incêndio, não sobrou quase nada. Apenas dois corpos que os bombeiros tiveram que separar com serrote. E durante o velório, caixões lacrados, lado a lado diante de todos como nunca, um comentário era inevitável nas rodinhas de conhecidos e curiosos que se formavam em volta da garrafa térmica de café madrugada adentro: “Esses dois hein? Que fogo...”

6 Comentários:
Pula fogueira Iáia...
Por essas e outras que eu nem tomo café e nem fumo. Fico só com o.... resto. O.o
eu acho que já ouvi essa história. Tô errada?
que drama meu velho haha mto bom!
É por isso que eu adoro a hora do cafézinho ;)
rsrs
muito bom. gostei e voltarei.
beijo
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